Tempos Surreais

É possivel um meio-homem/meio-robô encontrar o amor junto a um homem que tem cobras no lugar de cabeça?

Qualquer pessoas que estiver vivendo neste planeta neste momento pode concordar com a assunção simplista de que estamos vivendo em tempos surreais.

É um momento histórico em que todas as certezas humanas, especialmente as acadêmicas, estão suspensas por tempo indeteminado….em pausa para reflexão….em pausa para reconstrução…em pausa, enfim, para a criação de algo maior e melhor — meu desejo intrínseco.

A escolarização científica (solidamente estabelecida até então…) também se encontra em pausa para a reformulação (ou reestabelecimento, talvez?) dos seus planos de centralização, concretizados sob a forma dos padrões nacionais de “educação”( sim, entre aspas, pois sabemos que são padrões de escolarização), do currículo nacional e testes padronizados nacionais classificatórios.

Vemos, nesses tempos, a busca humana pelo sentido e por explicações, combinados com uma sufocante ânsia pela segurança da resposta certa, da escolha certa: as máquinas são o caminho….as intervenções em massa são a resposta…o contínuo aprisionamento é o rumo… a nossa única certeza é que a incerteza impera.

A experiência centralizadora dos afazeres humanos que tivemos no século passado — e já adentrados 20% do novo século — não tem sido muito boa para a maioria das pessoas.

Segundo Gatto, o nosso próprio planeta está em risco e os elementos ditos perniciosos, há muito excluídos por lei da existência norte-americana, como abuso de álcool, de drogas e do racismo, não parecem ter desaparecido, mas ao contrário: a lei parece dar, continuamente, nos maus hábitos, uma nova injeção de “vida virulenta”.

Será que a intimidação com base na lei produz mesmo os resultados sociais que promete? Gatto relembra que no início do século XX, os narcóticos eram legais nos Estados Unidos (álcool; cocaína; morfina; cannabis) e embora sempre tenham sido um incômodo pernicioso à sociedade, nunca se tornaram uma epidemia, antes de a legislação proibir o seu uso.

Será que o fato de as pessoas serem obrigadas a fazer algo (ou a não fazê-lo) faz com que elas o façam mais ainda, porém na sua versão piorada? Seria possível que as pessoas obrigadas a fazer algo só consigam obedecê-lo com a força da má vontade e da indiferença?

Gatto relembra que várias proibições relativas às escolhas pessoais em matéria de educação tem sido, continuamente, reforçadas por lei, o que faz consagrar-se toda uma burocracia exclusiva de professores e administradores oficiais, além de centenas de “agências invisíveis” necessárias para manter a estabilidade do monopólio da escolarização obrigatória oficial.

Desafiando as lições do mercado, esse construto psicopático tornou-se extremamente poderoso, apesar de suas falhas colossais frequentemente materializadas ao longo de sua história.

A escolarização mandatória só consegue sobreviver nos EUA porque faz uso contínuo do poder de polícia do Estado para conseguir preencher suas salas de aulas, proibindo, por outro lado, a escolha e a variedade da educação em muitos estados americanos.

Johnn Gatto alerta que, ao impedirem a fluência natural das opções educacionais, os engenheiros sociais oficiais, apoiados pelas indústrias que lucram com a escolarização obrigatória — professores de faculdades, editores de livros didáticos, fornecedores de materiais e outros — certificam que os nossos filhos não tenham educação, mesmo que eles sejam totalmente escolarizados.

Soluções?

Nesses tempos, mais do que nunca, parece óbvio que as escolas americanas fracassaram espetacularmente na sua tarefa cabal de dar aos nossos filhos a educação que queremos para eles –ou para nós mesmos — além de terem sido completamente negligentes em ser um instrumento efetivo de realização do sonho de uma sociedade democrática e sem classes, pela qual ainda ansiamos.

Mas, enfim, vejamos a “pegadinha” implícita nessa tragicomédia : o que falta, nesse tipo de “educação”, é a lógica que explica o nosso fracasso enquanto sociedade. Ao nos permitirmos a imposição da direção por parte de centros muito além do nosso controle local, perdemos continuamente a coerência natural do espírito humano: as pessoas só se sentem completas e integradas quando se reúnem voluntariamente em grupos que têm o mesmo ideal de almas.

Nós nos reunimos para buscar realizar os nossos sonhos individuais, familiares e coletivos, que são consistentes com a nossa humanidade particular. Esse sentimento de pertencimento e união é o que os torna inteiros, e os nossos sonhos devem ser inscritos localmente, uma vez que buscar empreender qualquer outra ambição maior, sem ter estabelecido essa base local é perder o contato com as coisas que dão sentido à nossa vida: eu, minha família, meus amigos, meu trabalho e minha comunidade.

Somente escravos são reunidos por outros.

John Taylor Gatto

Indústrias da engenharia social

Não espalhe vírus

John Taylor Gatto aponta duas maneiras oficiais e errôneas de se tratar a questão da educação nos Estados Unidos: a primeira, seria entendê-la como sendo um problema de engenharia social, que pode ser remediado através de uma abordagem instrumental pragmática. A partir desse ponto de vista, existiria uma maneira simples e certa de educar e estariam eliminadas as mil possibilidades individuais particulares que o espírito humano, naturalmente empreendedor, pode contemplar.

A segunda seria conceber a educação como se fosse um personagem de um drama contínuo, em que nós, os mocinhos, procuramos incansavelmente por aqueles vilões que estão impedindo o aprendizado dos nossos filhos: os maus professores, os livros didáticos ruins, administradores incompetentes, políticos nefastos, pais destreinados, filhos mimados — quem quer que sejam eles, precisamos encontrá-los, indiciá-los, denunciá-los, processá-los e talvez até executá-los! Aí sim as coisas vão dar certo.
Dessas duas formas de entendimento, nasceram as gigantescas indústrias que proclamam seus poderes para curar a “educação” em massa de suas mazelas em troca de muito dinheiro, of course….e assim, nesse mundo mágico e trágico, surge um desfile de organismos que buscam simplesmente o seu próprio lucro: analistas, consultores, pesquisadores, academias, escritores, consultores, colunistas, comitês de livros didáticos, conselhos escolares, empresas de teste, jornalistas, colegiados de professores, estados, departamentos de educação, monitores, coordenadores, fabricantes, professores e administradores certificados, programas de televisão e verdadeiras quadrilhas de empresas relacionadas à escola — ou seja, todo um universo que parasita em torno do monopólio oficial sobre esse conceito de escola.

Para Gatto, a maior atração da engenharia social e das filosofias anti-alguma coisa é que todos, basicamente, nos prometem uma solução rápida, que sempre foi o lado sombrio do sonho americano, ou seja, a busca de uma saída fácil e rápida para tudo. Nesse sentido se orienta o mencionado desfile interminável de “promoções”, que constitui o cerne da publicidade americana, que é um dos maiores empreendimentos dos Estados Unidos: promessas ofuscantes de dinheiro fácil, saúde fácil, beleza fácil, educação fácil — ah se nos tornássemos, cada um de nós, uma Jennie é Um Gênio! No entanto, espreitando por trás da “mágica”, Gatto nos mostra a imagem das pessoas como máquinas, que podem ( e precisam) ser construídas e reparadas. Este é legado calvinista americano, ecoando pelos séculos afora, propagando a ideia de que o mundo e toda a sua variedade de seres vivos são apenas máquinas, não muito difíceis de ajustar, se deixarmos de lado o sentimentalismo vão.


Mas no final das contas, a forma como pensamos os problemas sociais depende muito de nossa filosofia acerca da natureza humana: do que pensamos que somos, do que achamos que somos capazes e de quais seriam os propósitos da nossa existência.

É o que nos mostra Gatto: se as pessoas são máquinas, a escola pode ser mais uma maneira de tornar essas máquinas mais confiáveis; a lógica das máquinas determina que as peças sejam uniformes e intercambiáveis, que todas as operações mecânicas sejam limitadas pelo tempo, que sejam, ainda, previsíveis e econômicas.

Vasos pequenos demais…

A escolarização americana ensina, pela sua metodologia, de acordo com Gatto, que as pessoas são máquinas. Tocada a sineta, os circuitos se abrem e se fecham, a energia flui ou é restrita, as várias qualidades são reduzidas a um sistema numerado, um curso se segue, mas qual seja ele, nenhuma das peças da máquina o sabem.

Traduzo a seguir o que o mexicano Octavio Paz, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura de 1990, diz sobre as escolas americanas:

No sistema norte-americano, homens e mulheres são submetidos, desde a infância, a um processo inexorável. Certos princípios, contidos em breves fórmulas, são repetidos infinitamente pela imprensa, rádio, televisão, igrejas e, especialmente, pelas escolas. Uma pessoa aprisionada por esses esquemas é como uma planta em um vaso pequeno demais. Ela não pode crescer, nem amadurecer. Esse tipo de conspiração não pode deixar de provocar rebeliões individuais violentas.
Não podemos crescer ou amadurecer, como plantas, em vasos minúsculos. Ficamos viciados em dependência; na atual crise nacional da (necessidade de) maturidade, parece que ficamos esperando o professor nos dizer o que fazer, mas o professor nunca aparece. Pontes desabam, homens e mulheres dormem nas ruas, banqueiros trapaceiam, a decadência da boa vontade acontece, famílias se traem, o governo mente por que faz política — corrupção, vergonha, doença e sensacionalismo estão por toda parte. Nenhuma escola possui um currículo que nos forneça uma solução rápida.

Essencialmente, essa concepção de escola se baseia na mentira de que existe um caminho certo nos assuntos humanos e que só os especialistas podem ser consagrados com a direção permanente da empresa-educação, o que é uma falácia sem tamanho. Gatto adverte que a própria dinâmica incessante do tempo, das situações e das singularidades locais torna qualquer especialidade (expertise) irrelevante e obsoleta, imediatamente após a sua consagração.

Gatto acredita que o monopólio da escolarização seja a maior trunfo para o treinamento de pessoas para a sociedade/política atuais, uma vez que certifica especialistas permanentes, que gozam de um status privilegiado que não se justifica pelos resultados que produzem. E tais privilégios, uma vez alcançados, não são cedidos de bom grado. Além disso, essas “especialidades” executadas por tais “especialistas” — mesmo sendo alvo das mais severas críticas — se tornam cada vez maiores e mais perigosas, pois nutrem partes importantes do sistema político e econômico americano.

De fato, esse sistema torna-se refratário às reformas, pois deixou de ser um sistema/conjunto de funções humanas, mas se transformou em estruturas abstratas, de alta eficiência, independentes da longevidade da nossa humanidade.

Hora do basta!

Socorro….

Gatto e sua obra demonstra, além das nossas próprias experiências vividas na pele, que o sistema escolar não funciona nos termos que imaginamos, mas é uma das causas da decadência do nosso mundo.

Não existe reforma que faça a máquina da escolarização funcionar, em termos da produção de pessoas instruídas e educadas: educação e escolarização são, como já vimos, termos mutuamente exclusivos.

Conta-nos Gatto que, em 1930, há quase 100 anos, Thomas Briggs, Professor do Departamento de Educação — Teachers College — da Universidade de Columbia, em uma palestra em Harvard, já avisava que o grande investimento americano no ensino médio não havia mostrado resultados consideráveis.

​​Duas décadas depois, em 1951, uma pesquisa feita em Los Angeles com 30.000 crianças em idade escolar publicou que 75% dos alunos da oitava série não sabiam encontrar o Oceano Atlântico em um mapa e a grande maioria não conseguia calcular 50% de 36.

Em 1990, Gatto testemunha que a situação ainda não havia melhorado.

O que fazer? Poderíamos começar com o fim do monopólio da escolarização oficial obrigatória, como sugere John Taylor Gatto.

Outras sugestões são bem-vindas….não há respostas certas.

Podemos incentivar a experimentação em educação e confiar nas crianças e suas famílias para saber o que é melhor para eles; podemos parar com a segregação de crianças e idosos dentro de espaços murados; podemos envolver as pessoas das comunidades na educação dos jovens: empresas, instituições, idosos, famílias inteiras; podemos procurar respostas na nossa vizinhança e aceitar sugestões vindas de pessoas, e não de empresas.

Não precisamos temer os resultados educacionais negativos: ler, escrever e fazer conta não são difíceis de ensinar, além do fato de que a própria programação escolar não proíbe o uso de outros programas para o indivíduo aprender essas coisas. Segundo Gatto, há evidências abundantes de que menos de cem horas são suficientes para uma pessoa qualquer ser alfabetizada e se tornar uma autodidata, ou seja, aprender a aprender sozinha.

Não nos desesperemos com as táticas aterrorizantes que querem nos obrigar a entregar os nossos filhos a especialistas.
O ensino, para Gatto, deveria ser “decertificado”, pois não necessita da ação de um “especialista” para implementá-lo. A necessidade de “especialistas em ensino” com “certificados” para fazê-lo é uma falácia.

Vejamos os sinais dos tempos: os verdadeiros resultados da licenciatura dos professores estão nas escolas que conhecemos.

E, acima de tudo, procuremos responder a pergunta que nunca quis se calar: Para quê (e para quem) serve a educação?

Cada um tem o direito de responder a essa questão da melhor forma possível.

O modo compulsório de escolarização escondeu de seu público — e de forma deliberada — o fato de que essa pergunta deve ser formulada e reformulada em todo o percurso educacional — que dura toda a nossa vida — para que um ideal mais legítimo de democracia seja nutrido em prol de um mundo melhor.

É, no mínimo, suspeito e ilegítimo dar a palavra a um “especialista” para que ele responda a essa pergunta em nome de cada um de nós.

Pois bem! O presente post fecha a série de artigos baseados na obra do saudoso John Taylor Gatto.

Na próxima semana, darei início a uma série de artigos sobre as diferentes práticas de Homeschooling implementadas aqui na Califórnia, de acordo com a nossa experiência familiar.

Até a próxima!


precisamos mesmo de mais escolas?

Este é o penúltimo post que faz parte da primeira série de artigos sobre escolarização ou treinamento escolar analisados sob o olhar experiente de John Taylor Gatto, um dos autores cujas concepções sobre o que significa escolarizar crianças mais me impactaram no início da minha jornada com o Homeschooling, que ora está em plena transição para o Unschooling (Não-Escolarização). Falarei sobre isso com mais detalhes em um outro post, combinado?

Gatto percebe a grande dificuldade que vários especialistas em Educação demonstram ter em relação ao desnecessário aumento da capacidade das existentes redes formais de educação — aqui nos EUA isso se mostra com a extensão do dia ou do ano escolar, implementados pelos governos dos estados, por exemplo– a fim de fornecer uma solução econômica para os problemas que enfrentamos atualmente em nossas sociedades e que estão intimamente relacionados à decadência de um sentido de família que bem nos acolha e a nossas crianças. Talvez uma razão para essa estreita visão dos especialistas, aos olhos de Gatto, seja a dificuldade em se entender a real diferença entre comunidades, famílias e as redes sociais e de conhecimento (networks).

O Que é Networking?

Networking, ou rede social de conhecimentos é a troca de informações (contatos) com pessoas que têm interesses em áreas semelhantes. Um exemplo desse tipo de rede é a aquisição de contatos e o compartilhamento de informações entre diferentes divisões de uma mesma empresa para a troca de dados e resolução de problemas de negócios, por exemplo.

Essa rede tem, além da perspectiva social, a finalidade de possibilitar o acesso para que as pessoas desenvolvam ou melhorem um conjunto de habilidades específicas e se mantenham atualizadas sobre as últimas tendências do seu setor profissional, acompanhando o mercado de trabalho, conhecendo mentores em potencial, parceiros e clientes, incluindo o possível acesso aos recursos necessários que poderão promover o desenvolvimento nas suas carreiras.

Competitividade e Soluções Mecânicas

Devido à confusão que comumente se estabelece entre os papéis das comunidades e/ou famílias, por uma lado, e das redes de conhecimento (sociais), por outro, os especialistas facilmente concluem que substituir uma rede social de conhecimentos inapropriada por outra mais eficiente seria o caminho do sucesso para as pessoas que deixaram as escolas e caíram no mercado de trabalho.

Gatto discorda veementemente da premissa fundamental assumida de que redes sociais de quaisquer natureza seriam substitutos viáveis para as famílias e comunidades. Este nosso professor da rede escolar pública americana enfaticamente defende a posição de que não deveríamos pensar em mais treinamento, mas sim em menos.
As pessoas que admiram a instituição escolar, geralmente apreciam o networking em geral e têm facilidade em ver seu lado positivo, ignorando seu aspecto negativo: as redes, mesmo as eficientes, acabam por drenar a vitalidade das comunidades e das famílias, fornecendo soluções mecânicas, que seguem certos procedimentos-padrão, para os problemas humanos, quando, de fato, precisamos de um processo lento e orgânico de autoconsciência, autodescoberta e cooperação para que determinadas soluções persistam à natureza desagregadora da sociedade de consumo atual.

Aristóteles viu, há muito tempo, que a participação plena em uma complexa gama de assuntos humanos seria a única maneira de nos tornarmos plenamente humanos. O que se ganha com a consulta a um especialista, abrindo mão de seu próprio julgamento, geralmente se compensa com a perda permanente da própria vontade.

Afirma Gatto que tal descoberta pode explicar a curiosa textura da comunicação real, na qual as pessoas discutem com seus médicos, advogados e ministros, dizendo aos produtores de bens (artesãos, etc) o que precisam, em vez de aceitar o que recebem, fazendo sua própria comida em vez de comprá-la e muitas outras ações semelhantes de participação social. Para Gatto, uma comunidade real é o ajuntamento de famílias reais que funcionam dessa maneira participativa.

Um adendo: para Gatto, a ideia de “família”não significaria a exclusividade da tradicional disposição “mamãe-papai-e-filhinhos”, mas inclui todos os seus aspectos, inerentes aos relacionamentos humanos com base no amor: “mamãe-mamãe-e-filhinhos”; “papai-papai-e-filhinhos”; “mamãe-irmã-e-sobrinhos”, etc.

Por outro lado, para fazer parte das redes sociais de conhecimento, você não precisa ser uma “pessoa inteira”, mas apenas parte de uma pessoa. Para fazer networking, você deve suprimir de si mesmo todas as outras partes , exceto aquela de interesse da rede social — algo extremamente antinatural, embora a gente se acostume. Em troca, a rede lhe fornecerá eficiência na busca de algum objetivo determinado (fama? técnicas? Qualquer coisa vale).

Parece bom negócio, mas no final você acaba vendendo a sua alma para o diabo, uma vez que, com a promessa de algum ganho futuro, você vai precisar abrir mão da totalidade da sua real humanidade. Ao participar de inúmeras dessas barganhas, você se subdividirá em várias partes especializadas, porém nenhuma delas completamente humana, sem possibilidade ou tempo de reintegração real.
A fragmentação causada pelo excesso de networking cria uma humanidade diminuída e a sensação de que as nossas vidas estão totalmente fora de nós — porque estão.

Para encararmos a atual crise das escolas e comunidades de forma mais categórica, precisamos entender que as escolas têm funcionado como redes sociais de conhecimento, gerando grande parte da agonia da vida moderna. Por isso Gatto diz que não precisamos de mais escolarização — precisamos sim, de menos escolarização.

Mais Um Pouco de História….

Escola compulsória de massa em 1886, Massachusetts

As pessoas ainda querem provas dos malefícios da escolarização a longo prazo, muito embora milhões de indivíduos aqui nos EUA que participam da educação não-escolar hoje em dia já tenham colocado uma pulguinha atrás da orelha da população atenta, por causa do equilíbrio e segurança que as crianças educadas em casa demonstram ter ao abraçar suas carreiras empreendedoras o ou até mesmo, acadêmicas.

No entanto, para aqueles que ainda não sabem que não precisamos de professores certificados e nem de escolas oficiais para garantirmos uma boa educação para os nossos filhos, Gatto procurou tornar pública em sua obra uma grande parte do arsenal que faz da educação oficial o carrasco nocivo que é. E ele adverte aquele que estiver pensando “mas sempre foi assim” — não foi não!


A escolaridade obrigatória nas escolas de massa aqui nos EUA é um empreendimento bastante recente, muito característico das regiões de Massachusetts e de Nova York.

Gatto lembra que até trinta e tantos anos atrás, as pessoas podiam escapar da escolarização em massa depois que saíam da escola; agora é muito mais difícil fugir, porque existem outras formas de educação em massa — a televisão e as redes socias– que suprimem os espaços para que seja exercida alguma liberdade que ainda exista nos sujeitos criativos.

Assim, o que já era grotesco quanto ao tratamento nacional dos jovens americanos antes da década de 1960, tornou-se trágico, uma vez que surgiu o entretenimento comercial em massa, tão viciante quanto qualquer outra droga alucinógena, bloqueando as rotas de fuga da massificação total.
O que se ignora é que, o que consideramos como comunidades reais, dada a sua natureza comunitária de “famílias institucionais” — escolas, grandes corporações, faculdades, exércitos, hospitais e agências governamentais — na verdade, são genuinamente redes sociais.

Comunidades X Networks

Diferentemente das comunidades, as redes sociais, como adverte Gatto, permitem de forma estreita e limitada a associação entre as pessoas, e essa maneira de associação é efetuada através de algumas poucas uniformidades específicas.

Mesmo havendo momentos de rituais de celebração como a festa de Natal ou os aniversários comemorados no “espaço social”, quando os componentes individuais humanos da rede vão para casa, eles vão sozinhos. E, apesar do possível apoio dos colegas de trabalho em emergências, quando as pessoas sofrem em qualquer networking , elas sofrem sozinhas, a não ser que tenham alguma família ou uma comunidade para sofrer junto com elas.

As redes de conhecimento, assim como as escolas, não são comunidades; assim como o treinamento escolar também é muito diferente de educação.

De fato, Gatto adverte que as escolas de qualquer tipo são redes sociais que roubam a vitalidade das comunidades e a substituem por um mecanismo grotesto de controle, destituindo dos jovens cinquenta por cento do seu tempo total, prendendo-os junto com outros jovens que têm exatamente a sua idade (bizarro!), tocando sinetas para iniciar e terminar trabalhos aleatórios, pedindo a essas pessoas que pensem na mesma coisa, ao mesmo tempo, da mesma forma, classificando pessoas como se classifica legumes. Ninguém sobrevive a esses lugares com a sua humanidade intacta, nem crianças, nem professores, nem administradores, nem pais.

Por outro lado, a comunidade é um lugar no qual as pessoas convivem, ao longo do tempo, com toda a sua variedade humana: suas partes boas, suas partes ruins e as mais-ou-menos.

Esses lugares promovem a mais alta qualidade de vida possível, pois são vidas que têm engajamento e participação, acontecendo de maneiras inesperadas e espontâneas….são riquezas que não existem quando o sujeito passa mais de uma década ouvindo outras pessoas expondo conteúdos inanimados e tentando fazer o que elas mandam, ou seja, tentando agradá-las à moda das escolas.

Faz uma diferença real na vida se alguém escapa desse treinamento…se não conseguir, ficará um bom tempo aprisionado em um corpo desmembrado.

Em suma, Gatto reitera inúmera vezes ao longo de sua obra os danos que as redes de conhecimento (networking) — escolas e redes sociais, de modo geral — causam, pois travestem-se como comunidades reais para criar nas pessoas expectativas de que possam gerenciar, de alguma forma, as necessidades sociais e psicológicas humanas. A realidade é que as redes sociais não servem para isso.

Mesmo as associações mais inofensivas quanto os clubes de bridge, clubes de xadrez, grupos de atuação amadores ou grupos de ativistas sociais, vão acabar por produzir uma sensação estranha, mas familiar, de estarem sozinhos no meio de uma multidão. Qual de nós, que faz parte de alguma rede, não teve essa sensação? Pertencer a muitas redes sociais de conhecimentos não significa pertencer a uma comunidade, não importa o que você faça ou com que frequência o seu telefone toque.
Sendo parte de uma rede, o que você receber no começo da afiliação/amizade, será exatamente o que vai receber no final. As redes sociais ou de conhecimento não ficam melhores ou piores com o passar do tempo, pois seu objetivo limitado as mantém praticamente da mesma forma o tempo todo, pois não há crescimento humano que seja possível em seu interior.

O Grande Negócio que se chama “Educação”

Esse negócio super lucrativo que chamamos de “educação” — quando se quer dizer, na verdade, “escolarização” — é, segundo Gatto, um ótimo exemplo dos valores imbutidos nas redes sociais de conhecimentos que estão em contraste com os valores da comunidade.

Durante cento e cinquenta anos foi de interesse da educação institucionalizada oferecer ao público, como um de seus maiores objetivos, uma preparação para se adquirir sucesso econômico. Assim, ter uma boa “educação” (a instituicionalizada) era sinônimo de obtenção de garantias de se adquirir um bom trabalho, e com isso, um bom dinheiro, e por conseguinte, coisas boas. Essa era a bandeira nacional universal, sustentada pela instituição de Harvard e também pelas escolas de ensino médio americanas.

A prescrição de tal receita facilita o controle e a intimidação dos pais e alunos, desde que os termos essenciais da equação não sejam contestados em sua “veracidade” ou “verdade filosófica”.

Curiosamente, a Federação Americana de Professores aponta como uma de suas missões principais a persuasão da comunidade empresarial para que eles só contratem e promovam seus eleitos de acordo com as notas obtidas na escola, de forma que a fórmula notas escolares = dinheiro recebido seja mantida, exatamente como ainda acontece com as escolas de medicina e direito após anos de lobby político.

Até a atualidade, os empresários continuam contratando e promovendo seus eleitos à moda antiga americana, ou seja, fazendo uso do desempenho pessoal nas entrevistas e do julgamento particular como modo de seleção , mas, segundo Gatto, muitas empresas ainda estão sujeitas a sucumbir à indústria da “educação”, se não tiverem nada a perder.

O absurdo de definir a “educação institucionalizada” como sendo um bem de consumo fica mais evidente quando nos perguntamos o que é que a humanidade ganha, quando consideramos “educação” como mais um modo de aumentar ainda mais o consumismo descontrolado que ameaça a terra, o ar e a água do nosso planeta.

Será que devemos continuar doutrinando as pessoas para que elas possam comprar a felicidade, diante da evidência impávida que nos afronta a atualidade, como prova de que não podem? Devemos ignorar as evidências de que o vício em drogas, o alcoolismo, o suicídio de adolescentes, o divórcio e outros desesperos são patologias encontradas nos indivíduos moldados pelos dogmas da educação instituicionalizada como bem de consumo? São as perguntas que John Taylor Gatto lança a seu público leitor.

Nas respostas para tais perguntas jaz tanto a compreensão da doença que está nos matando, quanto a cura que estamos procurando.

Depois de mais de um século de existência, qual é o real objetivo da escola de massa?

Leitura, escrita e aritmética não são mais as respostas corretas, porque quando abordadas apropriadamente nas escolas, tais habilidades nem perfazem o total de cem horas para serem transmitidas — fora o fato de que temos evidências abundantes de que cada uma dessas disciplinas pode ser auto-adquirida, dependendo do tempo e do lugar em que o indivíduo aprendente se encontra.

Assim, estamos em novos tempos, inaugurados por uma pandemia, que independentemente de sua origem, trouxe uma pausa para a humanidade decidir quais mudanças os seres humanos irão implementar a partir de agora, mudanças essas que se pautam pela educação de nossas crianças.

A pergunta, acima em negrito, se sustenta e não deve mais se calar.

Até o próximo post!

Flavia Criss,

A Escola psicopática

Pois muito bem!

No post de hoje, como mencionado, vamos mergulhar um pouco mais nas ideias de John Taylor Gatto, o maior colaborador e divulgador da filosofia educacional do Homeschooling, que melhor se traduz, em minha opinião, como educação não-escolar. Posteriormente, vamos falar mais extensivamente sobre os modelos de homeschooling que praticamos aqui na Califórnia, combinado?

Estudaremos a seguir o texto que foi base para o discurso de John Taylor Gatto em 1990, por ocasião da sua premiação, pelo estado de Nova Yorque, como o melhor professor do ano da cidade de Nova Yorque.

“Quando se tira o livre-arbitrio da educação, tem-se a escolarização” –John Taylor Gatto

Aceito este prêmio em nome de todos os professores bons que conheci ao longo dos anos, que lutaram para honrar suas interações com as crianças: tratam-se de homens e mulheres que nunca foram complacentes, mas sempre questionaram e sempre lutaram para definir e redefinir o que a palavra “educação” deve significar. O professor do ano não é o melhor professor do mundo (que são geralmente pessoas muito pacatas para serem encontradas), mas o melhor professor do ano é, na verdade, aquela pessoa comum, representante dessas pessoas especiais que passam a sua vida toda a serviço das crianças . Este prêmio é para esses indivíduos, além de mim.

Com esse preâmbulo, Gatto dá início a uma de suas análises mais contundentes do sistema de educação norte-americano. Na última década do século passado, os Estados Unidos ostentavam o desonroso décimo-nono lugar em termos da capacidade de leitura, escrita e de aritmética de seus alunos de ensino médio, pré-universitários ou não.

Na opinião de Gatto, a escola é o fator mais importante nessa tragédia, pois, segundo ele, é a instituição escolar o elemento mais atuante na dilatação do abismo continuamente crescente entre as classes sociais.

A escola, que atualmente está sendo usada como um mecanismo de triagem, acaba por nos encaminhar em direção a um modelo completo de sistema de castas , incluindo até o conceito dos “intocáveis” (shudras), que se equiparam, na visão de Gatto, àqueles indivíduos oriundos das classes mais baixas da sociedade americana, que vagam pelos trens do metrô pedindo esmolas e dormindo nas ruas.


De fato, Gatto percebeu um fenômeno bastante interessante em seus trinta anos de ensino: as escolas e a escolarização estão se tornando cada vez mais irrelevantes para os grandes empreendimentos históricos do planeta: ninguém acredita que os grandes cientistas foram treinados nas aulas de ciências, que os grandes políticos se fizeram nas aulas de educação cívica ou que os poetas foram formados nas aulas de inglês.

A verdade é que as escolas efetivamente não ensinam nada, a não ser o obedecimento às ordens.

Muito embora os professores estejam comprometidos com o melhor para os seus alunos e trabalhem muito, muito mesmo, a instituição escola é psicopática — não tem consciência. É tocada uma campainha e o jovem, no meio da escrita de um poema, deve fechar o seu caderno e se mudar para uma outra cela, onde ele deve memorizar que humanos e macacos derivam de um ancestral comum. –John Taylor Gatto (Dumbing Us Down)

Um Pouco de História …

A forma oficial e obrigatória de escolarização norte-americana foi uma invenção do Estado de Massachusetts em cerca de 1850, sendo muito resistida — muitas vezes à bala — por cerca de oitenta por cento da população de Massachusetts. No entanto, na base de Barnstable em Cape Cod, as famílias conseguiram impedir que os seus filhos fossem escolarizados até a década de 1880, quando a área foi tomada por milícias e crianças marcharam para a escola sob a guarda armada.

As escolas, da forma como são até hoje, foram projetadas por Horace Mann e por Sears e Harper da Universidade de Chicago, além de Thorndyke do Columbia Teachers College( entre outros) para servirem como instrumentos para o gerenciamento científico da massa popular. Como tal poderoso instrumento, as escolas têm a intenção de produzir, através da aplicação de várias fórmulas, seres humanos formatados, cujo comportamento pode ser previsto e controlado.


Em larga escala, a escolarização tem sido bem sucedida em formatar pessoas para o mercado de trabalho. Porém, em nível nacional, considerando especificamente a realidade norte-americana, essa formatação está se mostrando cada vez mais desintegrada, dando visibilidade para os supostos “erros de formatação”, ou seja, aquelas pessoas que se tornaram realmente “bem-sucedidas”, independentes, auto-suficientes, confiantes e individualistas, pois não seguiram a fórmula escolar, ou seja, não foram escolarizadas.

Nas reflexões de Gatto a contundência impera, porque muitas vezes é preciso mesmo um chacoalhão para dispersar o transe hipnótico em que nos metemos, involuntariamente.

Pessoas escolarizadas são irrelevantes. Elas podem vender filmes e lâminas de barbear, fazer serviço burocrático, falar ao telefone, ou sentar-se, sem pensar, na frente de um terminal de computador de tela cintilante, mas como seres humanos são inúteis. Inúteis para os outros e inúteis para si mesmas. —-John Taylor Gatto, Dumbing Us Down.

Gatto adverte que é importante que entendamos que a instituição escolar “escolariza” muito bem as crianças, embora não as “eduque”, uma vez que é a propria escolarização que é inerente ao design da coisa denominada “escola”.

Não é a questão de os professores serem ruins ou de o governo ter investido muito pouco dinheiro nas escolas. Na verdade, é absolutamente impossível conceber e entender escolarização e educação como sendo a mesma coisa, segundo John Taylor Gatto.

Encarando a Besta de Frente

Qual o efeito real da escolarização na vida dos nossos filhos?

Essa foi a pergunta cabal que me trouxe à obra verdadeira e contundente de Gatto.

Vou reformular a questão: qual é o efeito real de empregar todo o tempo que os nossos filhos têm –ou seja, o tempo que eles precisam para crescerem — e forçá-los a gastá-lo em abstrações aleatórias, que muitas vezes são versões mal-acabadas da história que servem a propósitos escusos?

Precisamos sabê-lo. Qualquer reforma educacional que pretendamos implementar individualmente em nossas famílias ou coletivamente, tem que encarar de frente as patologias específicas inerentes à escolarização compulsória a fim de tratá-las, para não se tornar simplesmente mais uma reforma de fachada, que tanto repudiamos.

Eis a “cara da besta escolarizada”, segundo nos mostra Gatto:

1. As crianças escolarizadas são indiferentes ao mundo adulto. Esse fato desafia a experiência de aprendizagem da humanidade, que tem sido acumulada durante milhares de anos. Quando se estuda detalhadamente a vida de pessoas importantes da humanidade, sempre acaba sendo a paixão que elas tinham que se tornara a ocupação mais emocioante de sua juventude e, por conseguinte, a razão de seu sucesso e realização pessoal. No entanto, nem as escolas e nem os pais querem que as crianças cresçam hoje em dia, muito menos as próprias crianças — e quem pode culpá-las?


2.Os nossos filhos escolarizados quase não têm curiosidade e o pouco que têm é momentânea e circunstancial. Temos crianças que não conseguem se concentrar por muito tempo, nem mesmo nas coisas que escolhem fazer. É possível ver claramente uma conexão entre as sinetas tocadas repetidamente para a mudança de classe e esse fenômeno da falta de atenção.


3.As crianças escolarizadas têm uma péssima noção de futuro, de como o amanhã está inextricavelmente ligado ao hoje. As crianças escolarizadas vivem em um presente contínuo: o momento exato em que estão é o limite de sua consciência.


4. As crianças escolarizadas são a-históricas: não têm noção de como o passado predestinou seu próprio presente, limitou as suas escolhas, e moldou seus valores e vidas.


5. Os nossos filhos escolarizados são cruéis uns com os outros; eles não têm compaixão pela desgraça alheia, riem da fraqueza humana e desprezam as pessoas cuja necessidade de ajuda se mostra claramente.

6. Os nossos filhos escolarizados sentem-se desconfortáveis perante a demonstrações de intimidade ou sinceridade. Eles não conseguem lidar com a intimidade genuína por causa do hábito de preservar um eu interior secreto dentro de uma persona externa maior, composta de partes artificiais e pedaços de comportamento emprestados da televisão, das mídias sociais ou adquiridos para manipular os professores. Por não serem realmente essa persona que estão representando, o disfarce cai na presença da intimidade e por isso, os relacionamentos mais íntimos precisam ser evitados.


7. As crianças escolarizadas são materialistas, pois seguem o exemplo dos professores que materialisticamente “dão nota a tudo”, como também dos seus “mentores”das mídias sociais ou da televisão que colocam um preço em tudo.


8. As crianças escolarizadas são dependentes, passivas e tímidas na presença de novos desafios. Essa timidez é frequentemente mascarada por bravatas superficiais ou por raiva e agressividade, enquanto em seu âmago jaz um vácuo sem força de realização.

O Que Pode Ser Feito?

As ideias de Gatto são ainda extremamente atuais, embora os nossos tempos estejam mais difíceis, exatamente pelo fato de termos deixado a escolarização ir longe demais e estarmos pagando o preço por não termos, nós enquanto pais, prestado mais atenção. Afinal, nós também fomos escolarizados.

No entanto, sempre há esperança, especialmente nesses tempos de quarentena, em que o funcionamento das escolas foi alterado, deixando mais à mostra ainda a irrelevância da escolarização compulsória na vida de nossos filhos .

Mas como alerta Gatto, precisamos, antes de tudo, de um debate nacional contundente que não desista, mas esteja atuante dia após dia, ano após ano… seria o tipo de debate contínuo que a mídia convencional, atualmente retida nas mãos daquelas 6 mega-companhias donas do mundo, considera inapropriado.

Precisamos gritar e discutir os males da escolarização compulsória até que ela seja reformada ou, finalmente, quebrada além da possibilidade de reparo.

Se pudermos reformar esse modelo doente, ótimo; se não, o sucesso da educação não-escolar nos mostra um caminho diferente, e bastante promissor.

A proposta de Gatto é sedutora, em minha opinião: investir o dinheiro público, que até agora tem sido investido exclusivamente na escolarização, de volta à educação familiar pode curar duas doenças com um só remédio: curar as famílias, à medida em vai curando as crianças e criando um novo tipo de comunidade interdependente.

A reforma legítima do atual sistema de escolarização também é viável, desde que não custe nada mais do que o já dispensado, uma vez que injetar mais dinheiro e mais pessoas nessa instituição doente só a deixará mais doente ainda. Mas precisamos, antes de tudo, repensar as premissas fundamentais da escola e decidir o que queremos que as nossas crianças aprendam e para quê (ou para quem?).

Durante 140 anos, os Estados Unidos impeliram a escolarização compulsória na população, sistema cujas regras foram elaboradas a partir de um elevado centro de comando composto por “especialistas”, ou seja, uma elite centralizada de engenheiros sociais…. e não deu certo. Foi, na verdade, uma enorme deslealdade à promessa democrática que, no passado, fez dos Estados Unidos uma experiência grandiosa.

Gatto afirma que a tentativa da Rússia de criar a república de Platão na Europa Oriental foi um fracasso patente; e a tentativa americana de impor o mesmo tipo de ortodoxia central, usando as escolas como instrumento, também está desmoronando, embora mais lenta e dolorosamente.

A escolarização compulsória, segundo Gatto, não funciona porque suas premissas fundamentais são mecânicas, anti-humanas e hostis à vida familiar.

As vidas de uma multidão de indivíduos podem ser projetadas e controladas pela escolarização mecânica, mas haverá, por certo, o contra-ataque, com base em armas da patologia social: drogas, violência, autodestruição, indiferença e todos sintomas que Gatto nos mostra, no comportamento das crianças escolarizadas.

Curiosidade…


Em 1990, o movimento Homeschooling (educação em casa) crescia silenciosamente , contando um milhão e meio de jovens que foram educados inteiramente por seus pais; a imprensa da época noticiou que, em sua capacidade reflexiva, as crianças que estudavam em casa estavam cinco ou até dez anos à frente de seus pares que estavam sendo formalmente treinados.

Atualmente, a Califórnia é o estado em que estão registrados o maior número de crianças de 5 a 17 anos em situação de Homeschooling, contando, de acordo com o Censo e PEPSYASEX (Estimativas anuais da população residente por idade e sexo para a Comunidade dos Estados Unidos, Estados e Porto Rico: 1º de abril de 2010 a 1º de julho de 2015) cerca de 198.947 crianças e jovens educados em casa.

Esses números foram calculados com base nos 21 estados que, atualmente ou nos anos passados, publicaram em seus sites oficiais o número de crianças adeptas à educação não-escolar (veja aqui os números referentes aos outros estados norte-americanos).

Espero ter contribuído um pouco para enriquecer o debate educacional que novamente se instala nas sociedades pós-coronavírus.

Estou sempre aberta a reflexões e perguntas, que respondo sempre com base na minha experiência com o Homeschooling aqui na Califórnia .

Até o próximo post!

Flavia Criss.

Santa Cruz- CA, Junho de 2020.

SOBRE EMBURRECIMENTOS DIÁRIOS E CAVALARES

Muito bem, vamos conversar sobre o sistema escolar americano, como visto através dos olhos experientes de um autor fenomenal, o maior patrocinador do Homeschooling no mundo: apresento-lhes John Taylor Gatto, em Português. 🙂

Quero abrir parênteses para um comentário acerca do nome deste professor.

Quando estive conversando com o grupo de Homeschoolers em minha primeira entrevista (leia o post aqui para se inteirar dos babados), não pude deixar de notar que o nome que ouvia diferia completamente do escrito, sob as nuances da minha cultura linguística.

Explico: de acordo com a pronúncia do inglês californiano, o nome Gatto é dito “goro”. Assim, eles pronunciam John “Goro”.

Apresentando John Taylor Gatto

Uma pequena biografia do autor, s’il vous plais : John Gatto arrematou sua carreira docente com o prêmio de Professor do Ano do Estado de Nova York, depois de ganhar o mesmo prêmio nos três anos anteriores.

Sua carta de demissão foi publicada na primeira página do Wall Street Journal em 1991 enquanto ele ainda lecionava e nela constava seu maior apelo: parar, finalmente, de massacrar (palavra usada por ele) crianças através do sistema escolar americano.


Em 1992, Gatto foi nomeado Secretário de Educação e incluído no Who’s Who (Quem é Quem) da América, do ano de 1996 em diante.

Em 1997, recebeu o Prêmio Alexis de Tocqueville por suas contribuições para as causas libertárias e foi nomeado para o Conselho de Assessores da Semana Nacional do Desligando a TV (TV-Turnoff).

Mas qual a razão da premiação do nosso confesso mas pesaroso ex-professor? O que ele fazia de tão excepcional naquelas escolas que mereceu tantas premiações nacionais, mas que acabou forçando-o a retratar-se publicamente, divulgando a sua carta de demissão em um jornal, com um pedido de desculpas à sociedade?

Veremos a seguir.

As Sete Lições Mais Ensinadas nas Escolas

Gatto começou a lecionar no sistema educacional americano na década de 60, pois, segundo conta, naquela época ele não tinha nada melhor para fazer.
Adquiriu sua licença como professor de Língua Inglesa e Literatura, mas na verdade, ensinar não era o que ele se percebia fazendo realmente.

John Gatto apenas escolarizava crianças e ganhou vários prêmios por isso.
Ensinar alguma coisa para alguém é algo muito diferente do que aquilo que ele empreendia nas salas de aula das escolas de Nova Yorque, lecionando nos bairros mais pobres como o Harlem, até às vizinhanças mais ricas, como os campi de Hollywood Hills.

Em seu aclamado livro Dumbing Us Down (que pode ser traduzido como “Emburrecendo-nos”) Gatto revela que, no bojo do sistema educacional americano, são sete as lições realmente ensinadas às crianças nacionalmente e que constituem a base de fato do currículo oficial que os cidadãos americanos financiam continuamente através de seus impostos e doações, sem ter ideia, muitas vezes, do que estão a patrocinar.
Assim, apresento a seguir as lições que John Taylor Gatto realmente ensinou durante seus mais de 30 anos de escola, em seus próprios e dolorosos termos.

1. Confusão

A primeira lição ensinada por ele nas escolas é a confusão –ou seja, todos os assuntos programados no currículo estão fora de contexto e são jogados aos alunos sem preocupação alguma com a falta de nexo que incitam.
E a forma peka qual são ensinadas tais desconexões é através de uma enxurrada de informações desconexas: a órbita dos planetas, a lei dos números Naturais, o que foi a escravidão, os adjetivos, desenho arquitetônico, dança, ginástica, canto coral, assembléias, treinamento para incêndios, tecnologia da informação, testes padronizados, a segregação com base em idade que é, particularmente, uma verdadeira aberração, considerando o mundo real.

E o que essas coisas têm a ver entre si?


Mesmo nas melhores escolas, percebe-se a falta de coerência dos assuntos do currículo e em seu âmbito, uma série de contradições.

Segundo a sua experiência, Gatto percebeu que as crianças não encontram palavras para definir o pânico e a raiva que
sentem cotidianamente pelas constantes violações da ordem natural das coisas que lhes são enfiadas goelas abaixo sob a alcunha de Educação de Qualidade, quando educar com qualidade é algo totalmente diferente, e que requer o aprendizado profundo da coisa e sua relação com o mundo.

Essa confusão é enfurnada nos cérebros das crianças por um corpo de discente composto de adultos desconhecidos que fingem conhecê-las, que trabalham sozinhos sem ter, na maioria das vezes, significativo relacionamento entre si e que fazem aparentar uma experiência que não possuem.

Os seres humanos primam pela busca do sentido e por imprimir um significado em suas ações no mundo. Se a busca pelo sentido é o mister propósito da humanidade, a escolarização o evita, ao utilizar uma colcha de retalhos aleatória, disposta em sequência de fatos e teorias que absolutamente não guardam nenhuma coerência entre si, pois não são frutos da evolução natural de uma habilidade dentro de um contexto.

Assim, os professores tem ensinado, por anos a fio, a falta de relação entre as coisas, a infinita fragmentação do ser sem sentido no mundo, que é o verdadeiro oposto da coerência e da harmonia.

Sua prática escolar está mais relacionada à programação de televisão, ao invés de uma progressão natural da vida.

Para a maioria dessas crianças, seus lares já se transformaram num espectro, pois ambos os pais trabalham ou estão confusos demais para manter uma relação familiar.

Assim, na escola seus professores os ensinam cotidianamente como aceitar a confusão como seu meio e destino.

2.Pertencimento de Classe

Os professores que Gatto conhece muito bem (pois fez a mesma coisa durante décadas) ensinam que os alunos devem permanecer na classe a que pertencem. As crianças são numeradas de modo que, se alguma delas fugir ou se perder, elas façam faltam e possam ser devolvidas para a classe certa.

A estratégia de numerar as crianças é um empreendimento excelente e lucrativo, e muito embora a estratégia utilizada para tal discriminação seja imprecisa, os pais a consentem de bom grado!

Bons professores devem manter seus alunos na classe a que pertencem e fazê-los ostentar seus números com orgulho e desenvoltura, como se fossem a sua verdadeira identidade.

Se o trabalho de reforma de pensamento for bem executado, as crianças não conseguirão nem imaginar-se em outro lugar, pois já lhes foi incutido como invejar e temer as melhores classes e por outro lado, como desprezar as classes mais atrasadas.

Sob tal eficiente disciplina, a própria classe se auto-policia. A verdadeira lição de um ambiente competitivo como o escolar é a de que cada um sabe muito bem o seu lugar.

3. Indiferença

O professores, como Gatto relata, ensinam às crianças, de uma maneira bastante sutil, que elas não precisam se importar de verdade com nada no mundo.

Primeiramente, eles exigem das crianças que elas prestem sua total atenção ao que eles ensinam, motivando-as, através de inúmeras estratégias, a se envolverem mais, enchendo-as de entusiasmo e de expectativas que já são em si, a própria expressão da sua natureza viva e alegre por participar da criação e da compreensão do mundo.

Mas quando o sinal é tocado, a mágica deve ser imediatamente contida, as expectativas, recolhidas e o entusiasmo, recatado. É lhes exigido que deixem tudo o que estiverem fazendo e sentindo e sigam para a próxima aula ou intervalo, de forma calma e homogênea, como se o entusiasmo e a paixão não deixassem marcas nas almas.

Na escola, os bons alunos devem deixar-se ligar e desligar como um interruptor de luz, pois nada que seja realmente importante pode ser terminado no espaço de uma aula.
De fato, a lição que se ensina o toque do sinal é a de que nenhum trabalho vale o esforço de ser implementado, então por quê eles haveriam de se importar com alguma coisa?

Os anos vividos ao toque da sineta irão condicioná-los a entender que no mundo não existe trabalho que valha ser terminado. Essa é a grande lição do período escolar.

As sinetas destroem o passado e o futuro, tornando cada intervalo o mesmo que o outro, como abstrações em um mapa unidimensional, que faz com que todas as montanhas e rios vivos pareçam iguais.

E é assim que os toques das sinetas envenenam cada situação de potencial aprendizagem com uma marcada indiferença.

4. Dependência Emocional

Através das estrelinhas e dos xis vermelhos, dos sorrisos e das caras fechadas, dos prêmios e das suspensões, os professores ensinam às crianças a entregarem o seu livre arbítrio à predestinada cadeia de comando escolar.

Seus direitos poderão, assim, ser concedidos ou negados pelas autoridades escolares, sem a possibilidade de apelação, já que direitos não é coisa que exista dentro de uma escola. Nem mesmo o direito de livre expressão, como o garantido pelo Supremo Tribunal dos EUA é respeitado nas escolas, a não ser que as autoridades escolares o aprovem — sim, meus caros, a escola reina sobre o Congresso!

Como professor, Gatto interferiu em muitas das decisões pessoais dos seus alunos, emitindo pareceres positivos para aqueles comportamentos que considerava legítimos e confrontando disciplinarmente as atitudes estudantis que ameaçassem o seu controle local.

Como não somos seres homogêneos, a nossa individualidade, especialmente na puberdade, tenta se afirmar de inúmeras maneiras. E é nessa hora que o professor deve agir rápido, uma vez que a individualidade é também uma contradição à teoria de classe, uma verdadeira maldição para todos os sistemas de classificação.
Eis algumas formas pelas quais as individualidades emergem no ambiente que é essencialmente massificador: idas ao banheiro no meio da aula ou saídas para beber água no corredor.

Esses pretextos fazem parte do jogo e o professor condiciona os alunos a dependerem dos seus favores e a serem reféns do bom comportamento, pois dele deve derivar sua boa auto-estima.

5. Dependência Intelectual

“Alunos Nota Dez” devem esperar que o professor lhes diga o que fazer — eis a lição mais importante ensinada pela escola.

Sim, devemos esperar que outras pessoas, mais bem treinadas do que nós, nos digam o que devemos fazer com a nossa vida.

Só um especialista pode escolher por todos, certo? Só ele, o professor, pode determinar o que os meus filhos devem estudar, ou melhor, só as pessoas que pagam os salários dos professores é que podem tomar essas decisões por mim, que sou a mãe, e pelos meus filhos, certo?
Se disserem ao professor que a Teoria da Evolução das Espécies é um fato e não uma teoria, ele deve transmiti-lo aos alunos como ordenado, punindo os desviantes que resistirem ao que foi lhes dito para engolir.

Esse poder de controlar o que as crianças devem pensar é o que confere o poder aos professores para separar os alunos bem-sucedidos dos fracassados.
Os bons alunos pensam como os professores lhes dizem para pensar, com um mínimo de resistência e esboçando um certo entusiasmo.

Da riqueza infindável de assuntos existentes no mundo e que podem ser estudados, essa entidade — os empregadores abstratos dos professores— é que decide o que deverá ser visto no período escolar.

As escolhas são exclusivamente da entidade e os professores não podem questionar, pois dentro do sistema escolar não há espaço para questionamentos, mas sim para a conformidade.
Os maus alunos lutam contra o conformismo, mesmo não tendo
ainda desenvolvido os argumentos para saber que estão lutando para tomar decisões por si mesmos sobre o que querem aprender e quando aprenderão.

Mas isso não é permitido! Como os professores poderão sobreviver a esse tipo de liberdade?


Felizmente, existem procedimentos que são muito bem sucedidos, e foram testados para quebrar com êxito a vontade daqueles alunos que resistirem à conformação. Porém, existe uma maior dificuldade em usar essa influência, se alguns alunos tiverem pais responsáveis ​​que os respeitam e ajudam, mas isso acontece cada vez menos , mesmo com a péssima reputação das escolas. Os pais de classe média geralmente custam a acreditar que a escola em que seus filhos estudam seria uma daquelas escolas “ruins” de que ouvem falar, especialmente quando a mãe e o pai já foram bem escolarizados, aprendendo essas sete lições que nos ensina John Taylor Gatto.
A moral da estória aqui se resume no seguinte: pessoas boas esperam que um especialista lhes digam o que fazer. Não é exagero dizer que toda a economia americana está baseada no ensino sólido e duradouro desta lição em particular.

Gatto nos pede que imaginemos o “mundo” que desmoronaria se as crianças não fossem bem treinadas para serem dependentes: os serviços sociais dificilmente sobreviveriam, segundo ele, desaparecendo no limbo histórico de onde surgiram…. os psicólogos escolares e terapeutas
ficariam horrorizados com o desaparecimento dos denominados “inválidos psíquicos” (indivíduos afetados por algum transtorno psicológico. Leia mais aqui, em espanhol); os entretenimentos comerciais de todos os tipos, incluindo as mídias sociais e a televisão, definhariam, enquanto as pessoas aprenderiam novamente como serem os protagonistas de sua própria diversão….

Ou seja, optarmos por uma reforma educacional profunda implica uma mudança profunda na maneira de vivermos, que talvez estejamos nos preparando, em tempos de Coronavírus, para enfrentarmos, mesmo que à revelia de nossa vontade (por enquanto).

6. Auto-Estima Provisória

A sexta lição que os professores ensinam nas escolas americanas é como desenvolver uma auto-estima provisória.

Se você já tentou colocar em fila crianças cujos pais as convenceram de que serão amadas independentemente de qualquer coisa que fizerem, sabe como é impossível fazer com que espíritos autoconfiantes se conformem.

Nosso mundo como é não sobreviveria a uma enxurrada de pessoas confiantes , então os professores devem ensinar que o respeito próprio de uma criança deve depender da opinião de especialistas.

Assim, os alunos são constantemente avaliados e julgados e um relatório mensal, impressionante em suas disposições, é enviado para a casa de cada aluno, a fim de moldar a aprovação ou insatisfação de seus pais para com ele. A ecologia da “boa” escolaridade depende da perpetuação da insatisfação, assim como a economia depende desse mesmo fertilizante.

Porém, o peso acumulado desses documentos aparentemente objetivos acaba por estabelecer um perfil que obriga as crianças a assumirem certas ideias sobre si mesmas e seu futuro, ideias essas que têm base, unicamente, no julgamento aleatório de estranhos!

A auto-avaliação, que é o princípio maior de todos os principais sistemas filosóficos que já apareceram no planeta, nunca é considerada no sistema escolar.

A lição básica ensinada pelos boletins, pelas notas e pelos testes é que as crianças não devem confiar em si mesmas ou em seus pais, mas sim na avaliação de funcionários certificados que precisam informar às pessoas o quanto elas valem.

7.Ninguém Pode se Esconder

A sétima lição que que os professores ensinam nas escolas americanas é que ninguém pode se esconder.

É ensinado aos alunos que eles sempre serão vigiados constantemente pelos professores e seus ajudantes e que não há espaço e nem tempo reservado para as crianças.

A mudança de classe entre as aulas dura exatamente trezentos segundos, que é o tempo ótimo para manter a confraternização entre os alunos em níveis baixos.

Os alunos são incentivados a delatar uns aos outros ou mesmo a delatarem seus próprios pais e obviamente, os pais são incentivados a apresentarem relatórios sobre a desobediência dos próprios filhos. Uma família bem treinada para dedurar uns aos outros provavelmente não esconderá nenhum segredo que possa ser perigoso ao bom funcionamento do sistema.
É ainda ministrado um outro tipo de escolarização estendida, denominada “lição de casa”, de forma que tanto o efeito, quanto a própria vigilância atinjam as residências particulares, a fim de prevenir que os alunos usem o seu tempo livre para aprender algo não autorizado pelos pais. A deslealdade para com a idéia da contínua escolarização é a própria oficina do diabo.

A vigilância constante e a negação de qualquer privacidade implica na assunção de que não se pode confiar em ninguém e que a privacidade não é legítima.

Segundi Gatto, tal tipo de vigilância é um imperativo antigo, adotado por certos pensadores influentes, sendo uma receita central estabelecida em obras como A República, A Cidade de Deus, Os Institutos da Religião Cristã, Nova Atlântida, Leviatã e muitas outras. Todos os homens sem filhos que escreveram esses livros descobriram a mesma coisa: as crianças devem ser vigiadas de perto se você quiser manter uma sociedade sob controle central rígido.

Enfim, Gatto nos pede para olharmos novamente para essas sete lições fundamentais do ensino escolar: confusão, posição de classe, indiferença, dependência emocional e intelectual, auto-estima condicionada e vigilância.

Essas lições perfazem o melhor dos treinamento para cimentar os indivíduos em subclasses permanentes e destituir as pessoas das chances de encontrar o seu próprio gênio criador.

E com o passar do tempo, esse treinamento se desprendeu de seu objetivo original que era a “regulacão dos pobres” e a partir da década de 1920, com o crescimento da burocracia escolar, atrelado ao crescimento menos visível de uma horda de indústrias que lucravam e ainda lucram exatamente com o treinamento que escolaridade oferece, ampliou-se o alcance dessa demanda para incluir os filhos e filhas da classe média também.

No próximo post, vamos ver mais um conceito de John Taylor Gatto — A Escola Psicopática — e a partir dele, conseguiremos entender como um fenômeno nefasto como o bullying encontrou o seu nicho perfeito no bojo do sistema escolar.

Até lá!

Flávia Criss

Junho 2020 — Santa Cruz, Califórnia



SOBRE EMBURRECIMENTOS DIÁRIOS E CAVALARES: PEQUENA INTRODUÇÃO

AVISO: Querido leitor, já peço perdão de antemão pelo chacoalhão que a série destes dois posts possa lhe trazer. Escrevo com a melhor das boas intenções para te contar do que venho aprendendo, mas o aviso é necessário, pois aprender algo tão libertário pode , às vezes, tirar o fôlego. E esse saber é conhecido por causar muitas inquietações persistentes em seus aprendentes. Por favor, sinta-se avisado 🙂

Quando decidi começar o Homeschooling da Isadora, muitas dúvidas aconteciam o tempo todo. Não vou dizer que as dúvidas sumiram, mas o que posso afirmar, com o peito cheio de orgulho, é que as certezas de estar no caminho certo vêm brotando profusamente, verdinhas e parrudas.

Em fevereiro de 2018 tomamos as providências práticas e legais para que Isa não voltasse mais a frequentar escola pública americana, haja vista a impossibilidade já imposta pelo PTSD (Síndrome Pós-Trauma) que a deixou enclausurada no quarto durante 3 meses, como mencionei no post anterior (leia aqui, por favor). Assim, outras alternativas, além da terapia, eram necessárias e com urgência.

Aqui na Califórnia e nos EUA como um todo, existe a possibilidade-bênção-ousadia-independência-próatividade de as pessoas procurarem grupos de apoio para se ajudarem exatamente com isso: o suporte mútuo em situações difíceis.

Assim, quando me vi naquelas circunstâncias com a Isa, procurei na internet um grupo de apoio local e encontrei , com graças ao Divino Espírito Criador. Trocamos e-mails e dois dias depois fomos — meu marido Isa e eu — ao encontro dessas pessoas, mães e pais maravilhosos que parecem ser de outro planeta. Não há como deixar de admirar tamanho nível de sabedoria, desprendimento, cultura e informação que essas pessoas contêm em si e doam a quem precisar.

Juro que parecia que tinha entrado em outra realidade, que não era o planeta Terra. O nível de conhecimento desses indivíduos praticantes do Homeschooling e do Unschooling é simplesmente fora do comum, algo que no Brasil simplesmente não existe.

E sendo, essa região em que moramos, famosa por ser cobiçada pelas belezas naturais e portanto, morada de vários artistas da indústria cinematográfica e empreendedores milionários, dá pra imaginar um pouco o nível dessas pessoas, certo?

Se não, deixa eu te dizer só o seguinte: a míseros 13 minutos da minha casa aqui em Marin County fica o rancho (Skywalker Ranch) do George Lucas, lembra de Star Wars? Sim, agora acho que dá pra captar o que eu quero dizer com a expressão pessoas fora do comum.

Como era de se esperar de alguém que vive literalmente de letras, a primeira coisa sobre o que conversamos com os Homeschoolers em nosso primeiro encontro/entrevista foi sobre literatura de apoio, ou seja, tudo o que eles lêem, assistem, escrevem e fazem sobre o assunto. A sensação que tive é que, até então, eu estivera vivendo como aqueles náufragos sedentos, sabe? Finalmente tinha encontrado a minha família! Finalmente conseguia conversar de igual para igual com aquelas pessoas, irmãs de almas livres, grandiosas e corajosas!

Abrindo parênteses: Leitor amado, eu confesso que preciso, necessito muito de leitura. Eu preciso ler o tempo todo, eu não vivo sem ler, especialmente quando preciso aprender alguma coisa. Fechando parênteses.

Então essas pessoas Homeschoolers estupendas me passaram títulos de livros e o nome de alguns autores — a família de uma das mães Homeschooler inclusive conheceu pessoalmente Jonh Taylor Gatto, de quem falaremos em breve — para que eu me refestelasse em uma caixa de literatura dirigida.

E assim é que começarei a te dizer um pouco mais sobre as ideias que li nesses livros, que muito discuti com essas pessoas, até finalmente conseguir assumir cotidianamente, junto à minha família, o que venho aprendendo.

Segura o chapéu, que no próximo post iremos voar.

Flavia Criss,

San Francisco Bay Area.

PEQUENA INTRODUÇÃO À NOSSA HISTÓRIA AMERICANA

Quando aterrisamos em São Francisco em fevereiro de 2014 em meio a um inverno tenebroso, nunca imaginaríamos que haveríamos de abraçar a grandiosa liberdade de ter, pelo menos, uma de nossas filhas independentes das malhas do sistema escolar.

A bem da verdade, nossa mudança para a Califórnia tinha, como seu peso máximo positivo, a possibilidade de as meninas adquirirem sua educação nas melhores escolas de um país que é o primeiro do mundo em vários quesitos, especialmente em consumo de bens. E escolarização é atualmente um dos bens de consumo e dos mais caros, você há de convir comigo.

No entanto, a liberdade, ainda que tardia –quase 5 anos depois de nossa chegada — não viera a troco de nada. Foi preciso muitas lágrimas e muito sofrimento para estarmos nesse ponto da nossa trajetória, contando os progressos de uma vida não mais escolar de uma criança de 10 anos de idade, nossa filha mais nova.

Vou contar, a seguir, um pouquinho da nossa estréia — ou melhor, a de nossas filhas — no sistema escolar americano.

No entanto, antes de prosseguir, me deixa fazer um big adendo? Quero convidar você para visitar o site Mães Mundo Afora, em que estão as melhores estórias de aventuras pelos países mais diversos, além de histórias de superação, escritas por mães incomparáveis, assim como eu e você.

Tenho minha coluna especial por lá, em que escrevo mensalmente sobreHomeschooling. Só clicar no meu perfil, Flavia Criss, e é vapt vupt, você vai ler tudinho de bom que eu já escrevi por lá.

Antes do Bullying

Assim que estávamos todos instalados, residindo em Alameda — uma ilha que funciona como um subúrbio da cidade de São Francisco — nossas filhas deram continuidade ao ensino fundamental que cursaram no Brasil, muito embora sem ainda terem o conhecimento da língua inglesa.

Sofia, com então 9 anos de idade (foto acima) tinha terminado o terceiro ano no Brasil e por ser fevereiro, meio do ano escolar americano, ainda teve que cursar o terceiro ano nos EUA , já que não dominava muito bem o Inglês. Assim, os 4 meses até o final do ano letivo americano (que termina em junho) serviriam para ela como adaptação ao país e à língua.

Por outro lado, Isadora, com 5 anos de idade (foto acima), não tinha sido ainda alfabetizada quando deixamos o Brasil. Chegou nos EUA e foi aceita no kindergarten (jardim da infância). Entretanto, por ser extremamente tímida, Isa já teve mais dificuldades em aceitar o ambiente escolar americano e a língua estrangeira, muito embora a professora dela tenha sempre agido com ela e conosco como se fosse uma pessoa da nossa família.

Enquanto Sofia amava a escola, Isadora a execrava. Não gostava das regras, não gostava de acordar cedo, não gostava do barulho das crianças, não gostava da competição entre elas, não gostava de ter que falar com estranhos o tempo todo…enfim, escola era um tormento para ela. Mas a vida segue e nós, também.

Em oito meses de América do Norte, Sofia já se despontava como a melhor aluna da classe. Aprendera o idioma em um mês e tornou-se a queridinha das professoras tanto do quarto e quinto anos, pois ama comunicação e atuação em grupo, trabalho voluntário, roda de amigas, festas e socializações das mais diversas.

Enquanto isso, Isa desenvolvera um mutismo seletivo e não abria a boca para falar com uma pessoinha sequer na escola. Teve que repetir o kindergarten a conselho da professora, pois não estávamos seguros de que ela iria se adaptar ao primeiro ano ultra competitivo da escola americana. As crianças do kindergarten já liam, enquanto Isa só gostava de desenhar e pintar.

O ano seguinte, o primeiro ano escolar, foi dificílimo para ela e a direção da escola decidiu intervir, pois Isa não lia o número mínimo exato de palavras por minuto exigido nos EUA — 75 a 100 palavras por minuto perfeitamente pronunciadas para o primeiro ano. Nós entendíamos que ela tinha outras prioridades, pois ela lia um pouco em casa, por outro lado desenhava e pintava extremamente bem para alguém da idade dela.

Mas o fato é que Isa não correspondia aos padrões das crianças que frequentavam a escola, muito embora o corpo discente fosse composto por um número grande de filhos de imigrantes, já que cerca de 50% da população da cidade de Alameda são estrangeiros.

A direção da escola exigiu de nós que Isa tivesse o acompanhamento de um psicólogo e que frequentasse, na escola, aulas de reforço de Inglês Como Segunda Língua com uma professora especialista, que falava espanhol, além do Inglês, em sala de aula, com as crianças filhas de imigrantes. Atendemos prontamente as recomendações.

O interessante é que nossa filha, em casa, era outra pessoa. Era feliz, comunicativa, engraçada, ultra criativa em suas artes plásticas e corporais. Tanto ela, como a irmã mais velha, só falavam em Inglês entre si e conosco.

Isadora foi alfabetizada em Inglês, lia e escrevia razoavelmente bem no idioma em casa e por essa razão nós não víamos o caso da leitura da Isa na escola como um problema, mas como uma questão de preferência sua, pessoal: ela não gostava de ler em público.

É claro que a escola não via a situação da mesma forma…

E Eis Que o Bullying nos Acomete…

Tudo mudou radicalmente quando tivemos que nos mudar de cidade, para um outro condado localizado mais ao norte da baía de São Francisco.

Enquanto Sofia ingressava no sexto ano da Middle School (foto) que assemelha-se ao Ginásio de antigamente no Brasil, porém contado do sexto ao oitavo anos, Isa (foto) estreava no segundo ano do ensino fundamental nesta nova cidade.

Marin County ainda é considerada subúrbio de São Francisco, sendo uma região linda e montanhosa, muito famosa pelo alto poder aquisitivo de seus habitantes e morada para muitos artistas americanos, como o saudoso Robin Williams, George Lucas e Stephen Curry, o jogador de basquete, para citar alguns.

Nossa ideia, ao nos mudarmos para lá, era que as meninas seriam melhor preparadas, já que as escolas locais de Marin são super bem cotadas, simplesmente as melhores da região de São Francisco. Só que com a qualidade, vinha atrelada a alta competitividade e até então não tínhamos nos atinado para o fato.

Sofia sofreu um pouco, mas como é extremamente talentosa com pessoas, conseguiu dar continuidade ao reinado monotônico do seu boletim escolar: A A A A A A A A….sem outra nota diferente.

Porém, Isadora teve a sorte de pegar, no final do segundo ano do ensino fundamental, uma professora americana daquelas bem loiras, corpulenta, já idosa, um tanto militaresca, rude e amargurada porque tinha acabado de perder a mãe.

Essa mulher tratava a nossa filha extremamente mal, tanto que a criança chorava na sala de aula quase todos os dias. E nós, atônitos e imigrantes, pulávamos de reunião em reunião com o diretor da escola, tomando todas as providências que podíamos dentro da lei para proteger a Isa daquela professora atormentada que parecia detestar estrangeiros.

Parece fácil para nós, brasileiros, pensar em resolver a situação responsabilizando a professora e exigindo medidas para afastá-la. Só que na Califórnia, as coisas não funcionam assim…basta dizer que o sindicato dos professores é extremamente forte, unido e belicoso por aqui. Mas este é um assunto para outro post, combinado?

Sei que o tormento durou 3 meses e finalmente Isadora, então com 9 anos, passou para o terceiro ano. Só que…..os alunos da professorona militar passaram de ano junto com ela.

E assim, durante quase 8 meses, essa mesticinha linda da foto, a nossa amada “bebê”, sofreu bullying grave e em silêncio. Os coleguinhas de sala, certamente seguindo o exemplo da professora anterior, com o agravante da alta competitividade local e a presença de poucos imigrantes na escola, massacravam Isadora diariamente, xingando-a de vários nomes, que “nojenta” (gross em Inglês) seria só um dos melhores exemplos.

Ela por fim explodiu, um dia, que conto com detalhes aqui, mas deixo dois trechinhos abaixo:

Com mil ideias loucas girando na cabeça caótica, de roupa de ginástica e cabelos à la Einstein, calço aquelas botas horríveis, mas confortáveis (você sabe do que estou falando, aposto) e vou dirigindo rapidamente até a escola.

Uma vez chegando, do carro já avisto minha filhota caminhando devagarinho, saindo do “office”. Ela chega no carro de cabeça baixa, sem falar uma palavra e sem chorar. Pergunto o que aconteceu, ela me responde que não foi nada. E fica lá muda, cabisbaixa, ensimesmada, macambúzia e todos os adjetivos do gênero, e eu vendo claramente no ar pesado dela que tinha acontecido tudo. 

Quando Isa explodiu, ela se despregou do mundo exterior. Não havia como trazê-la de volta à vida escolar e nem pública sob nenhuma forma. Não saía de casa, não conseguia brincar lá fora com crianças, não conseguia se relacionar com a irmã e com as amigas.

E assim começou nossa aventura com o Homeschooling, já que Isa desenvolveu uma síndrome pós-traumática (PTSD) e não conseguia sair de casa. Ela tremia da cabeça aos pés, chorava descontroladamente se visse qualquer criança ou adulto ou pessoa — até nós, seus pais — chegar perto dela. E foi assim durante meses.

Mas aos poucos o céu vai se abrindo e o que pareceu ser um grande infortúnio, demonstrou ser, na verdade, uma enorme bênção disfarçada.

Dia das Mães em 2018. Depois de 3 meses inteirinhos passados em casa, Isadora consegue sair a lugares públicos, contanto que mantivesse os olhos fechados o tempo todo.

Quer saber mais? Fique comigo que continuamos no próximo post.

Um beijo e até lá!

Flávia Criss

San Francisco Bay Area.