SOBRE EMBURRECIMENTOS DIÁRIOS E CAVALARES: PEQUENA INTRODUÇÃO

AVISO: Querido leitor, já peço perdão de antemão pelo chacoalhão que a série destes dois posts possa lhe trazer. Escrevo com a melhor das boas intenções para te contar do que venho aprendendo, mas o aviso é necessário, pois aprender algo tão libertário pode , às vezes, tirar o fôlego. E esse saber é conhecido por causar muitas inquietações persistentes em seus aprendentes. Por favor, sinta-se avisado 🙂

Quando decidi começar o Homeschooling da Isadora, muitas dúvidas aconteciam o tempo todo. Não vou dizer que as dúvidas sumiram, mas o que posso afirmar, com o peito cheio de orgulho, é que as certezas de estar no caminho certo vêm brotando profusamente, verdinhas e parrudas.

Em fevereiro de 2018 tomamos as providências práticas e legais para que Isa não voltasse mais a frequentar escola pública americana, haja vista a impossibilidade já imposta pelo PTSD (Síndrome Pós-Trauma) que a deixou enclausurada no quarto durante 3 meses, como mencionei no post anterior (leia aqui, por favor). Assim, outras alternativas, além da terapia, eram necessárias e com urgência.

Aqui na Califórnia e nos EUA como um todo, existe a possibilidade-bênção-ousadia-independência-próatividade de as pessoas procurarem grupos de apoio para se ajudarem exatamente com isso: o suporte mútuo em situações difíceis.

Assim, quando me vi naquelas circunstâncias com a Isa, procurei na internet um grupo de apoio local e encontrei , com graças ao Divino Espírito Criador. Trocamos e-mails e dois dias depois fomos — meu marido Isa e eu — ao encontro dessas pessoas, mães e pais maravilhosos que parecem ser de outro planeta. Não há como deixar de admirar tamanho nível de sabedoria, desprendimento, cultura e informação que essas pessoas contêm em si e doam a quem precisar.

Juro que parecia que tinha entrado em outra realidade, que não era o planeta Terra. O nível de conhecimento desses indivíduos praticantes do Homeschooling e do Unschooling é simplesmente fora do comum, algo que no Brasil simplesmente não existe.

E sendo, essa região em que moramos, famosa por ser cobiçada pelas belezas naturais e portanto, morada de vários artistas da indústria cinematográfica e empreendedores milionários, dá pra imaginar um pouco o nível dessas pessoas, certo?

Se não, deixa eu te dizer só o seguinte: a míseros 13 minutos da minha casa aqui em Marin County fica o rancho (Skywalker Ranch) do George Lucas, lembra de Star Wars? Sim, agora acho que dá pra captar o que eu quero dizer com a expressão pessoas fora do comum.

Como era de se esperar de alguém que vive literalmente de letras, a primeira coisa sobre o que conversamos com os Homeschoolers em nosso primeiro encontro/entrevista foi sobre literatura de apoio, ou seja, tudo o que eles lêem, assistem, escrevem e fazem sobre o assunto. A sensação que tive é que, até então, eu estivera vivendo como aqueles náufragos sedentos, sabe? Finalmente tinha encontrado a minha família! Finalmente conseguia conversar de igual para igual com aquelas pessoas, irmãs de almas livres, grandiosas e corajosas!

Abrindo parênteses: Leitor amado, eu confesso que preciso, necessito muito de leitura. Eu preciso ler o tempo todo, eu não vivo sem ler, especialmente quando preciso aprender alguma coisa. Fechando parênteses.

Então essas pessoas Homeschoolers estupendas me passaram títulos de livros e o nome de alguns autores — a família de uma das mães Homeschooler inclusive conheceu pessoalmente Jonh Taylor Gatto, de quem falaremos em breve — para que eu me refestelasse em uma caixa de literatura dirigida.

E assim é que começarei a te dizer um pouco mais sobre as ideias que li nesses livros, que muito discuti com essas pessoas, até finalmente conseguir assumir cotidianamente, junto à minha família, o que venho aprendendo.

Segura o chapéu, que no próximo post iremos voar.

Flavia Criss,

San Francisco Bay Area.

PEQUENA INTRODUÇÃO À NOSSA HISTÓRIA AMERICANA

Quando aterrisamos em São Francisco em fevereiro de 2014 em meio a um inverno tenebroso, nunca imaginaríamos que haveríamos de abraçar a grandiosa liberdade de ter, pelo menos, uma de nossas filhas independentes das malhas do sistema escolar.

A bem da verdade, nossa mudança para a Califórnia tinha, como seu peso máximo positivo, a possibilidade de as meninas adquirirem sua educação nas melhores escolas de um país que é o primeiro do mundo em vários quesitos, especialmente em consumo de bens. E escolarização é atualmente um dos bens de consumo e dos mais caros, você há de convir comigo.

No entanto, a liberdade, ainda que tardia –quase 5 anos depois de nossa chegada — não viera a troco de nada. Foi preciso muitas lágrimas e muito sofrimento para estarmos nesse ponto da nossa trajetória, contando os progressos de uma vida não mais escolar de uma criança de 10 anos de idade, nossa filha mais nova.

Vou contar, a seguir, um pouquinho da nossa estréia — ou melhor, a de nossas filhas — no sistema escolar americano.

No entanto, antes de prosseguir, me deixa fazer um big adendo? Quero convidar você para visitar o site Mães Mundo Afora, em que estão as melhores estórias de aventuras pelos países mais diversos, além de histórias de superação, escritas por mães incomparáveis, assim como eu e você.

Tenho minha coluna especial por lá, em que escrevo mensalmente sobreHomeschooling. Só clicar no meu perfil, Flavia Criss, e é vapt vupt, você vai ler tudinho de bom que eu já escrevi por lá.

Antes do Bullying

Assim que estávamos todos instalados, residindo em Alameda — uma ilha que funciona como um subúrbio da cidade de São Francisco — nossas filhas deram continuidade ao ensino fundamental que cursaram no Brasil, muito embora sem ainda terem o conhecimento da língua inglesa.

Sofia, com então 9 anos de idade (foto acima) tinha terminado o terceiro ano no Brasil e por ser fevereiro, meio do ano escolar americano, ainda teve que cursar o terceiro ano nos EUA , já que não dominava muito bem o Inglês. Assim, os 4 meses até o final do ano letivo americano (que termina em junho) serviriam para ela como adaptação ao país e à língua.

Por outro lado, Isadora, com 5 anos de idade (foto acima), não tinha sido ainda alfabetizada quando deixamos o Brasil. Chegou nos EUA e foi aceita no kindergarten (jardim da infância). Entretanto, por ser extremamente tímida, Isa já teve mais dificuldades em aceitar o ambiente escolar americano e a língua estrangeira, muito embora a professora dela tenha sempre agido com ela e conosco como se fosse uma pessoa da nossa família.

Enquanto Sofia amava a escola, Isadora a execrava. Não gostava das regras, não gostava de acordar cedo, não gostava do barulho das crianças, não gostava da competição entre elas, não gostava de ter que falar com estranhos o tempo todo…enfim, escola era um tormento para ela. Mas a vida segue e nós, também.

Em oito meses de América do Norte, Sofia já se despontava como a melhor aluna da classe. Aprendera o idioma em um mês e tornou-se a queridinha das professoras tanto do quarto e quinto anos, pois ama comunicação e atuação em grupo, trabalho voluntário, roda de amigas, festas e socializações das mais diversas.

Enquanto isso, Isa desenvolvera um mutismo seletivo e não abria a boca para falar com uma pessoinha sequer na escola. Teve que repetir o kindergarten a conselho da professora, pois não estávamos seguros de que ela iria se adaptar ao primeiro ano ultra competitivo da escola americana. As crianças do kindergarten já liam, enquanto Isa só gostava de desenhar e pintar.

O ano seguinte, o primeiro ano escolar, foi dificílimo para ela e a direção da escola decidiu intervir, pois Isa não lia o número mínimo exato de palavras por minuto exigido nos EUA — 75 a 100 palavras por minuto perfeitamente pronunciadas para o primeiro ano. Nós entendíamos que ela tinha outras prioridades, pois ela lia um pouco em casa, por outro lado desenhava e pintava extremamente bem para alguém da idade dela.

Mas o fato é que Isa não correspondia aos padrões das crianças que frequentavam a escola, muito embora o corpo discente fosse composto por um número grande de filhos de imigrantes, já que cerca de 50% da população da cidade de Alameda são estrangeiros.

A direção da escola exigiu de nós que Isa tivesse o acompanhamento de um psicólogo e que frequentasse, na escola, aulas de reforço de Inglês Como Segunda Língua com uma professora especialista, que falava espanhol, além do Inglês, em sala de aula, com as crianças filhas de imigrantes. Atendemos prontamente as recomendações.

O interessante é que nossa filha, em casa, era outra pessoa. Era feliz, comunicativa, engraçada, ultra criativa em suas artes plásticas e corporais. Tanto ela, como a irmã mais velha, só falavam em Inglês entre si e conosco.

Isadora foi alfabetizada em Inglês, lia e escrevia razoavelmente bem no idioma em casa e por essa razão nós não víamos o caso da leitura da Isa na escola como um problema, mas como uma questão de preferência sua, pessoal: ela não gostava de ler em público.

É claro que a escola não via a situação da mesma forma…

E Eis Que o Bullying nos Acomete…

Tudo mudou radicalmente quando tivemos que nos mudar de cidade, para um outro condado localizado mais ao norte da baía de São Francisco.

Enquanto Sofia ingressava no sexto ano da Middle School (foto) que assemelha-se ao Ginásio de antigamente no Brasil, porém contado do sexto ao oitavo anos, Isa (foto) estreava no segundo ano do ensino fundamental nesta nova cidade.

Marin County ainda é considerada subúrbio de São Francisco, sendo uma região linda e montanhosa, muito famosa pelo alto poder aquisitivo de seus habitantes e morada para muitos artistas americanos, como o saudoso Robin Williams, George Lucas e Stephen Curry, o jogador de basquete, para citar alguns.

Nossa ideia, ao nos mudarmos para lá, era que as meninas seriam melhor preparadas, já que as escolas locais de Marin são super bem cotadas, simplesmente as melhores da região de São Francisco. Só que com a qualidade, vinha atrelada a alta competitividade e até então não tínhamos nos atinado para o fato.

Sofia sofreu um pouco, mas como é extremamente talentosa com pessoas, conseguiu dar continuidade ao reinado monotônico do seu boletim escolar: A A A A A A A A….sem outra nota diferente.

Porém, Isadora teve a sorte de pegar, no final do segundo ano do ensino fundamental, uma professora americana daquelas bem loiras, corpulenta, já idosa, um tanto militaresca, rude e amargurada porque tinha acabado de perder a mãe.

Essa mulher tratava a nossa filha extremamente mal, tanto que a criança chorava na sala de aula quase todos os dias. E nós, atônitos e imigrantes, pulávamos de reunião em reunião com o diretor da escola, tomando todas as providências que podíamos dentro da lei para proteger a Isa daquela professora atormentada que parecia detestar estrangeiros.

Parece fácil para nós, brasileiros, pensar em resolver a situação responsabilizando a professora e exigindo medidas para afastá-la. Só que na Califórnia, as coisas não funcionam assim…basta dizer que o sindicato dos professores é extremamente forte, unido e belicoso por aqui. Mas este é um assunto para outro post, combinado?

Sei que o tormento durou 3 meses e finalmente Isadora, então com 9 anos, passou para o terceiro ano. Só que…..os alunos da professorona militar passaram de ano junto com ela.

E assim, durante quase 8 meses, essa mesticinha linda da foto, a nossa amada “bebê”, sofreu bullying grave e em silêncio. Os coleguinhas de sala, certamente seguindo o exemplo da professora anterior, com o agravante da alta competitividade local e a presença de poucos imigrantes na escola, massacravam Isadora diariamente, xingando-a de vários nomes, que “nojenta” (gross em Inglês) seria só um dos melhores exemplos.

Ela por fim explodiu, um dia, que conto com detalhes aqui, mas deixo dois trechinhos abaixo:

Com mil ideias loucas girando na cabeça caótica, de roupa de ginástica e cabelos à la Einstein, calço aquelas botas horríveis, mas confortáveis (você sabe do que estou falando, aposto) e vou dirigindo rapidamente até a escola.

Uma vez chegando, do carro já avisto minha filhota caminhando devagarinho, saindo do “office”. Ela chega no carro de cabeça baixa, sem falar uma palavra e sem chorar. Pergunto o que aconteceu, ela me responde que não foi nada. E fica lá muda, cabisbaixa, ensimesmada, macambúzia e todos os adjetivos do gênero, e eu vendo claramente no ar pesado dela que tinha acontecido tudo. 

Quando Isa explodiu, ela se despregou do mundo exterior. Não havia como trazê-la de volta à vida escolar e nem pública sob nenhuma forma. Não saía de casa, não conseguia brincar lá fora com crianças, não conseguia se relacionar com a irmã e com as amigas.

E assim começou nossa aventura com o Homeschooling, já que Isa desenvolveu uma síndrome pós-traumática (PTSD) e não conseguia sair de casa. Ela tremia da cabeça aos pés, chorava descontroladamente se visse qualquer criança ou adulto ou pessoa — até nós, seus pais — chegar perto dela. E foi assim durante meses.

Mas aos poucos o céu vai se abrindo e o que pareceu ser um grande infortúnio, demonstrou ser, na verdade, uma enorme bênção disfarçada.

Dia das Mães em 2018. Depois de 3 meses inteirinhos passados em casa, Isadora consegue sair a lugares públicos, contanto que mantivesse os olhos fechados o tempo todo.

Quer saber mais? Fique comigo que continuamos no próximo post.

Um beijo e até lá!

Flávia Criss

San Francisco Bay Area.

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