SOBRE EMBURRECIMENTOS DIÁRIOS E CAVALARES

Muito bem, vamos conversar sobre o sistema escolar americano, como visto através dos olhos experientes de um autor fenomenal, o maior patrocinador do Homeschooling no mundo: apresento-lhes John Taylor Gatto, em Português. 🙂

Quero abrir parênteses para um comentário acerca do nome deste professor.

Quando estive conversando com o grupo de Homeschoolers em minha primeira entrevista (leia o post aqui para se inteirar dos babados), não pude deixar de notar que o nome que ouvia diferia completamente do escrito, sob as nuances da minha cultura linguística.

Explico: de acordo com a pronúncia do inglês californiano, o nome Gatto é dito “goro”. Assim, eles pronunciam John “Goro”.

Apresentando John Taylor Gatto

Uma pequena biografia do autor, s’il vous plais : John Gatto arrematou sua carreira docente com o prêmio de Professor do Ano do Estado de Nova York, depois de ganhar o mesmo prêmio nos três anos anteriores.

Sua carta de demissão foi publicada na primeira página do Wall Street Journal em 1991 enquanto ele ainda lecionava e nela constava seu maior apelo: parar, finalmente, de massacrar (palavra usada por ele) crianças através do sistema escolar americano.


Em 1992, Gatto foi nomeado Secretário de Educação e incluído no Who’s Who (Quem é Quem) da América, do ano de 1996 em diante.

Em 1997, recebeu o Prêmio Alexis de Tocqueville por suas contribuições para as causas libertárias e foi nomeado para o Conselho de Assessores da Semana Nacional do Desligando a TV (TV-Turnoff).

Mas qual a razão da premiação do nosso confesso mas pesaroso ex-professor? O que ele fazia de tão excepcional naquelas escolas que mereceu tantas premiações nacionais, mas que acabou forçando-o a retratar-se publicamente, divulgando a sua carta de demissão em um jornal, com um pedido de desculpas à sociedade?

Veremos a seguir.

As Sete Lições Mais Ensinadas nas Escolas

Gatto começou a lecionar no sistema educacional americano na década de 60, pois, segundo conta, naquela época ele não tinha nada melhor para fazer.
Adquiriu sua licença como professor de Língua Inglesa e Literatura, mas na verdade, ensinar não era o que ele se percebia fazendo realmente.

John Gatto apenas escolarizava crianças e ganhou vários prêmios por isso.
Ensinar alguma coisa para alguém é algo muito diferente do que aquilo que ele empreendia nas salas de aula das escolas de Nova Yorque, lecionando nos bairros mais pobres como o Harlem, até às vizinhanças mais ricas, como os campi de Hollywood Hills.

Em seu aclamado livro Dumbing Us Down (que pode ser traduzido como “Emburrecendo-nos”) Gatto revela que, no bojo do sistema educacional americano, são sete as lições realmente ensinadas às crianças nacionalmente e que constituem a base de fato do currículo oficial que os cidadãos americanos financiam continuamente através de seus impostos e doações, sem ter ideia, muitas vezes, do que estão a patrocinar.
Assim, apresento a seguir as lições que John Taylor Gatto realmente ensinou durante seus mais de 30 anos de escola, em seus próprios e dolorosos termos.

1. Confusão

A primeira lição ensinada por ele nas escolas é a confusão –ou seja, todos os assuntos programados no currículo estão fora de contexto e são jogados aos alunos sem preocupação alguma com a falta de nexo que incitam.
E a forma peka qual são ensinadas tais desconexões é através de uma enxurrada de informações desconexas: a órbita dos planetas, a lei dos números Naturais, o que foi a escravidão, os adjetivos, desenho arquitetônico, dança, ginástica, canto coral, assembléias, treinamento para incêndios, tecnologia da informação, testes padronizados, a segregação com base em idade que é, particularmente, uma verdadeira aberração, considerando o mundo real.

E o que essas coisas têm a ver entre si?


Mesmo nas melhores escolas, percebe-se a falta de coerência dos assuntos do currículo e em seu âmbito, uma série de contradições.

Segundo a sua experiência, Gatto percebeu que as crianças não encontram palavras para definir o pânico e a raiva que
sentem cotidianamente pelas constantes violações da ordem natural das coisas que lhes são enfiadas goelas abaixo sob a alcunha de Educação de Qualidade, quando educar com qualidade é algo totalmente diferente, e que requer o aprendizado profundo da coisa e sua relação com o mundo.

Essa confusão é enfurnada nos cérebros das crianças por um corpo de discente composto de adultos desconhecidos que fingem conhecê-las, que trabalham sozinhos sem ter, na maioria das vezes, significativo relacionamento entre si e que fazem aparentar uma experiência que não possuem.

Os seres humanos primam pela busca do sentido e por imprimir um significado em suas ações no mundo. Se a busca pelo sentido é o mister propósito da humanidade, a escolarização o evita, ao utilizar uma colcha de retalhos aleatória, disposta em sequência de fatos e teorias que absolutamente não guardam nenhuma coerência entre si, pois não são frutos da evolução natural de uma habilidade dentro de um contexto.

Assim, os professores tem ensinado, por anos a fio, a falta de relação entre as coisas, a infinita fragmentação do ser sem sentido no mundo, que é o verdadeiro oposto da coerência e da harmonia.

Sua prática escolar está mais relacionada à programação de televisão, ao invés de uma progressão natural da vida.

Para a maioria dessas crianças, seus lares já se transformaram num espectro, pois ambos os pais trabalham ou estão confusos demais para manter uma relação familiar.

Assim, na escola seus professores os ensinam cotidianamente como aceitar a confusão como seu meio e destino.

2.Pertencimento de Classe

Os professores que Gatto conhece muito bem (pois fez a mesma coisa durante décadas) ensinam que os alunos devem permanecer na classe a que pertencem. As crianças são numeradas de modo que, se alguma delas fugir ou se perder, elas façam faltam e possam ser devolvidas para a classe certa.

A estratégia de numerar as crianças é um empreendimento excelente e lucrativo, e muito embora a estratégia utilizada para tal discriminação seja imprecisa, os pais a consentem de bom grado!

Bons professores devem manter seus alunos na classe a que pertencem e fazê-los ostentar seus números com orgulho e desenvoltura, como se fossem a sua verdadeira identidade.

Se o trabalho de reforma de pensamento for bem executado, as crianças não conseguirão nem imaginar-se em outro lugar, pois já lhes foi incutido como invejar e temer as melhores classes e por outro lado, como desprezar as classes mais atrasadas.

Sob tal eficiente disciplina, a própria classe se auto-policia. A verdadeira lição de um ambiente competitivo como o escolar é a de que cada um sabe muito bem o seu lugar.

3. Indiferença

O professores, como Gatto relata, ensinam às crianças, de uma maneira bastante sutil, que elas não precisam se importar de verdade com nada no mundo.

Primeiramente, eles exigem das crianças que elas prestem sua total atenção ao que eles ensinam, motivando-as, através de inúmeras estratégias, a se envolverem mais, enchendo-as de entusiasmo e de expectativas que já são em si, a própria expressão da sua natureza viva e alegre por participar da criação e da compreensão do mundo.

Mas quando o sinal é tocado, a mágica deve ser imediatamente contida, as expectativas, recolhidas e o entusiasmo, recatado. É lhes exigido que deixem tudo o que estiverem fazendo e sentindo e sigam para a próxima aula ou intervalo, de forma calma e homogênea, como se o entusiasmo e a paixão não deixassem marcas nas almas.

Na escola, os bons alunos devem deixar-se ligar e desligar como um interruptor de luz, pois nada que seja realmente importante pode ser terminado no espaço de uma aula.
De fato, a lição que se ensina o toque do sinal é a de que nenhum trabalho vale o esforço de ser implementado, então por quê eles haveriam de se importar com alguma coisa?

Os anos vividos ao toque da sineta irão condicioná-los a entender que no mundo não existe trabalho que valha ser terminado. Essa é a grande lição do período escolar.

As sinetas destroem o passado e o futuro, tornando cada intervalo o mesmo que o outro, como abstrações em um mapa unidimensional, que faz com que todas as montanhas e rios vivos pareçam iguais.

E é assim que os toques das sinetas envenenam cada situação de potencial aprendizagem com uma marcada indiferença.

4. Dependência Emocional

Através das estrelinhas e dos xis vermelhos, dos sorrisos e das caras fechadas, dos prêmios e das suspensões, os professores ensinam às crianças a entregarem o seu livre arbítrio à predestinada cadeia de comando escolar.

Seus direitos poderão, assim, ser concedidos ou negados pelas autoridades escolares, sem a possibilidade de apelação, já que direitos não é coisa que exista dentro de uma escola. Nem mesmo o direito de livre expressão, como o garantido pelo Supremo Tribunal dos EUA é respeitado nas escolas, a não ser que as autoridades escolares o aprovem — sim, meus caros, a escola reina sobre o Congresso!

Como professor, Gatto interferiu em muitas das decisões pessoais dos seus alunos, emitindo pareceres positivos para aqueles comportamentos que considerava legítimos e confrontando disciplinarmente as atitudes estudantis que ameaçassem o seu controle local.

Como não somos seres homogêneos, a nossa individualidade, especialmente na puberdade, tenta se afirmar de inúmeras maneiras. E é nessa hora que o professor deve agir rápido, uma vez que a individualidade é também uma contradição à teoria de classe, uma verdadeira maldição para todos os sistemas de classificação.
Eis algumas formas pelas quais as individualidades emergem no ambiente que é essencialmente massificador: idas ao banheiro no meio da aula ou saídas para beber água no corredor.

Esses pretextos fazem parte do jogo e o professor condiciona os alunos a dependerem dos seus favores e a serem reféns do bom comportamento, pois dele deve derivar sua boa auto-estima.

5. Dependência Intelectual

“Alunos Nota Dez” devem esperar que o professor lhes diga o que fazer — eis a lição mais importante ensinada pela escola.

Sim, devemos esperar que outras pessoas, mais bem treinadas do que nós, nos digam o que devemos fazer com a nossa vida.

Só um especialista pode escolher por todos, certo? Só ele, o professor, pode determinar o que os meus filhos devem estudar, ou melhor, só as pessoas que pagam os salários dos professores é que podem tomar essas decisões por mim, que sou a mãe, e pelos meus filhos, certo?
Se disserem ao professor que a Teoria da Evolução das Espécies é um fato e não uma teoria, ele deve transmiti-lo aos alunos como ordenado, punindo os desviantes que resistirem ao que foi lhes dito para engolir.

Esse poder de controlar o que as crianças devem pensar é o que confere o poder aos professores para separar os alunos bem-sucedidos dos fracassados.
Os bons alunos pensam como os professores lhes dizem para pensar, com um mínimo de resistência e esboçando um certo entusiasmo.

Da riqueza infindável de assuntos existentes no mundo e que podem ser estudados, essa entidade — os empregadores abstratos dos professores— é que decide o que deverá ser visto no período escolar.

As escolhas são exclusivamente da entidade e os professores não podem questionar, pois dentro do sistema escolar não há espaço para questionamentos, mas sim para a conformidade.
Os maus alunos lutam contra o conformismo, mesmo não tendo
ainda desenvolvido os argumentos para saber que estão lutando para tomar decisões por si mesmos sobre o que querem aprender e quando aprenderão.

Mas isso não é permitido! Como os professores poderão sobreviver a esse tipo de liberdade?


Felizmente, existem procedimentos que são muito bem sucedidos, e foram testados para quebrar com êxito a vontade daqueles alunos que resistirem à conformação. Porém, existe uma maior dificuldade em usar essa influência, se alguns alunos tiverem pais responsáveis ​​que os respeitam e ajudam, mas isso acontece cada vez menos , mesmo com a péssima reputação das escolas. Os pais de classe média geralmente custam a acreditar que a escola em que seus filhos estudam seria uma daquelas escolas “ruins” de que ouvem falar, especialmente quando a mãe e o pai já foram bem escolarizados, aprendendo essas sete lições que nos ensina John Taylor Gatto.
A moral da estória aqui se resume no seguinte: pessoas boas esperam que um especialista lhes digam o que fazer. Não é exagero dizer que toda a economia americana está baseada no ensino sólido e duradouro desta lição em particular.

Gatto nos pede que imaginemos o “mundo” que desmoronaria se as crianças não fossem bem treinadas para serem dependentes: os serviços sociais dificilmente sobreviveriam, segundo ele, desaparecendo no limbo histórico de onde surgiram…. os psicólogos escolares e terapeutas
ficariam horrorizados com o desaparecimento dos denominados “inválidos psíquicos” (indivíduos afetados por algum transtorno psicológico. Leia mais aqui, em espanhol); os entretenimentos comerciais de todos os tipos, incluindo as mídias sociais e a televisão, definhariam, enquanto as pessoas aprenderiam novamente como serem os protagonistas de sua própria diversão….

Ou seja, optarmos por uma reforma educacional profunda implica uma mudança profunda na maneira de vivermos, que talvez estejamos nos preparando, em tempos de Coronavírus, para enfrentarmos, mesmo que à revelia de nossa vontade (por enquanto).

6. Auto-Estima Provisória

A sexta lição que os professores ensinam nas escolas americanas é como desenvolver uma auto-estima provisória.

Se você já tentou colocar em fila crianças cujos pais as convenceram de que serão amadas independentemente de qualquer coisa que fizerem, sabe como é impossível fazer com que espíritos autoconfiantes se conformem.

Nosso mundo como é não sobreviveria a uma enxurrada de pessoas confiantes , então os professores devem ensinar que o respeito próprio de uma criança deve depender da opinião de especialistas.

Assim, os alunos são constantemente avaliados e julgados e um relatório mensal, impressionante em suas disposições, é enviado para a casa de cada aluno, a fim de moldar a aprovação ou insatisfação de seus pais para com ele. A ecologia da “boa” escolaridade depende da perpetuação da insatisfação, assim como a economia depende desse mesmo fertilizante.

Porém, o peso acumulado desses documentos aparentemente objetivos acaba por estabelecer um perfil que obriga as crianças a assumirem certas ideias sobre si mesmas e seu futuro, ideias essas que têm base, unicamente, no julgamento aleatório de estranhos!

A auto-avaliação, que é o princípio maior de todos os principais sistemas filosóficos que já apareceram no planeta, nunca é considerada no sistema escolar.

A lição básica ensinada pelos boletins, pelas notas e pelos testes é que as crianças não devem confiar em si mesmas ou em seus pais, mas sim na avaliação de funcionários certificados que precisam informar às pessoas o quanto elas valem.

7.Ninguém Pode se Esconder

A sétima lição que que os professores ensinam nas escolas americanas é que ninguém pode se esconder.

É ensinado aos alunos que eles sempre serão vigiados constantemente pelos professores e seus ajudantes e que não há espaço e nem tempo reservado para as crianças.

A mudança de classe entre as aulas dura exatamente trezentos segundos, que é o tempo ótimo para manter a confraternização entre os alunos em níveis baixos.

Os alunos são incentivados a delatar uns aos outros ou mesmo a delatarem seus próprios pais e obviamente, os pais são incentivados a apresentarem relatórios sobre a desobediência dos próprios filhos. Uma família bem treinada para dedurar uns aos outros provavelmente não esconderá nenhum segredo que possa ser perigoso ao bom funcionamento do sistema.
É ainda ministrado um outro tipo de escolarização estendida, denominada “lição de casa”, de forma que tanto o efeito, quanto a própria vigilância atinjam as residências particulares, a fim de prevenir que os alunos usem o seu tempo livre para aprender algo não autorizado pelos pais. A deslealdade para com a idéia da contínua escolarização é a própria oficina do diabo.

A vigilância constante e a negação de qualquer privacidade implica na assunção de que não se pode confiar em ninguém e que a privacidade não é legítima.

Segundi Gatto, tal tipo de vigilância é um imperativo antigo, adotado por certos pensadores influentes, sendo uma receita central estabelecida em obras como A República, A Cidade de Deus, Os Institutos da Religião Cristã, Nova Atlântida, Leviatã e muitas outras. Todos os homens sem filhos que escreveram esses livros descobriram a mesma coisa: as crianças devem ser vigiadas de perto se você quiser manter uma sociedade sob controle central rígido.

Enfim, Gatto nos pede para olharmos novamente para essas sete lições fundamentais do ensino escolar: confusão, posição de classe, indiferença, dependência emocional e intelectual, auto-estima condicionada e vigilância.

Essas lições perfazem o melhor dos treinamento para cimentar os indivíduos em subclasses permanentes e destituir as pessoas das chances de encontrar o seu próprio gênio criador.

E com o passar do tempo, esse treinamento se desprendeu de seu objetivo original que era a “regulacão dos pobres” e a partir da década de 1920, com o crescimento da burocracia escolar, atrelado ao crescimento menos visível de uma horda de indústrias que lucravam e ainda lucram exatamente com o treinamento que escolaridade oferece, ampliou-se o alcance dessa demanda para incluir os filhos e filhas da classe média também.

No próximo post, vamos ver mais um conceito de John Taylor Gatto — A Escola Psicopática — e a partir dele, conseguiremos entender como um fenômeno nefasto como o bullying encontrou o seu nicho perfeito no bojo do sistema escolar.

Até lá!

Flávia Criss

Junho 2020 — Santa Cruz, Califórnia



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