A Escola psicopática

Pois muito bem!

No post de hoje, como mencionado, vamos mergulhar um pouco mais nas ideias de John Taylor Gatto, o maior colaborador e divulgador da filosofia educacional do Homeschooling, que melhor se traduz, em minha opinião, como educação não-escolar. Posteriormente, vamos falar mais extensivamente sobre os modelos de homeschooling que praticamos aqui na Califórnia, combinado?

Estudaremos a seguir o texto que foi base para o discurso de John Taylor Gatto em 1990, por ocasião da sua premiação, pelo estado de Nova Yorque, como o melhor professor do ano da cidade de Nova Yorque.

“Quando se tira o livre-arbitrio da educação, tem-se a escolarização” –John Taylor Gatto

Aceito este prêmio em nome de todos os professores bons que conheci ao longo dos anos, que lutaram para honrar suas interações com as crianças: tratam-se de homens e mulheres que nunca foram complacentes, mas sempre questionaram e sempre lutaram para definir e redefinir o que a palavra “educação” deve significar. O professor do ano não é o melhor professor do mundo (que são geralmente pessoas muito pacatas para serem encontradas), mas o melhor professor do ano é, na verdade, aquela pessoa comum, representante dessas pessoas especiais que passam a sua vida toda a serviço das crianças . Este prêmio é para esses indivíduos, além de mim.

Com esse preâmbulo, Gatto dá início a uma de suas análises mais contundentes do sistema de educação norte-americano. Na última década do século passado, os Estados Unidos ostentavam o desonroso décimo-nono lugar em termos da capacidade de leitura, escrita e de aritmética de seus alunos de ensino médio, pré-universitários ou não.

Na opinião de Gatto, a escola é o fator mais importante nessa tragédia, pois, segundo ele, é a instituição escolar o elemento mais atuante na dilatação do abismo continuamente crescente entre as classes sociais.

A escola, que atualmente está sendo usada como um mecanismo de triagem, acaba por nos encaminhar em direção a um modelo completo de sistema de castas , incluindo até o conceito dos “intocáveis” (shudras), que se equiparam, na visão de Gatto, àqueles indivíduos oriundos das classes mais baixas da sociedade americana, que vagam pelos trens do metrô pedindo esmolas e dormindo nas ruas.


De fato, Gatto percebeu um fenômeno bastante interessante em seus trinta anos de ensino: as escolas e a escolarização estão se tornando cada vez mais irrelevantes para os grandes empreendimentos históricos do planeta: ninguém acredita que os grandes cientistas foram treinados nas aulas de ciências, que os grandes políticos se fizeram nas aulas de educação cívica ou que os poetas foram formados nas aulas de inglês.

A verdade é que as escolas efetivamente não ensinam nada, a não ser o obedecimento às ordens.

Muito embora os professores estejam comprometidos com o melhor para os seus alunos e trabalhem muito, muito mesmo, a instituição escola é psicopática — não tem consciência. É tocada uma campainha e o jovem, no meio da escrita de um poema, deve fechar o seu caderno e se mudar para uma outra cela, onde ele deve memorizar que humanos e macacos derivam de um ancestral comum. –John Taylor Gatto (Dumbing Us Down)

Um Pouco de História …

A forma oficial e obrigatória de escolarização norte-americana foi uma invenção do Estado de Massachusetts em cerca de 1850, sendo muito resistida — muitas vezes à bala — por cerca de oitenta por cento da população de Massachusetts. No entanto, na base de Barnstable em Cape Cod, as famílias conseguiram impedir que os seus filhos fossem escolarizados até a década de 1880, quando a área foi tomada por milícias e crianças marcharam para a escola sob a guarda armada.

As escolas, da forma como são até hoje, foram projetadas por Horace Mann e por Sears e Harper da Universidade de Chicago, além de Thorndyke do Columbia Teachers College( entre outros) para servirem como instrumentos para o gerenciamento científico da massa popular. Como tal poderoso instrumento, as escolas têm a intenção de produzir, através da aplicação de várias fórmulas, seres humanos formatados, cujo comportamento pode ser previsto e controlado.


Em larga escala, a escolarização tem sido bem sucedida em formatar pessoas para o mercado de trabalho. Porém, em nível nacional, considerando especificamente a realidade norte-americana, essa formatação está se mostrando cada vez mais desintegrada, dando visibilidade para os supostos “erros de formatação”, ou seja, aquelas pessoas que se tornaram realmente “bem-sucedidas”, independentes, auto-suficientes, confiantes e individualistas, pois não seguiram a fórmula escolar, ou seja, não foram escolarizadas.

Nas reflexões de Gatto a contundência impera, porque muitas vezes é preciso mesmo um chacoalhão para dispersar o transe hipnótico em que nos metemos, involuntariamente.

Pessoas escolarizadas são irrelevantes. Elas podem vender filmes e lâminas de barbear, fazer serviço burocrático, falar ao telefone, ou sentar-se, sem pensar, na frente de um terminal de computador de tela cintilante, mas como seres humanos são inúteis. Inúteis para os outros e inúteis para si mesmas. —-John Taylor Gatto, Dumbing Us Down.

Gatto adverte que é importante que entendamos que a instituição escolar “escolariza” muito bem as crianças, embora não as “eduque”, uma vez que é a propria escolarização que é inerente ao design da coisa denominada “escola”.

Não é a questão de os professores serem ruins ou de o governo ter investido muito pouco dinheiro nas escolas. Na verdade, é absolutamente impossível conceber e entender escolarização e educação como sendo a mesma coisa, segundo John Taylor Gatto.

Encarando a Besta de Frente

Qual o efeito real da escolarização na vida dos nossos filhos?

Essa foi a pergunta cabal que me trouxe à obra verdadeira e contundente de Gatto.

Vou reformular a questão: qual é o efeito real de empregar todo o tempo que os nossos filhos têm –ou seja, o tempo que eles precisam para crescerem — e forçá-los a gastá-lo em abstrações aleatórias, que muitas vezes são versões mal-acabadas da história que servem a propósitos escusos?

Precisamos sabê-lo. Qualquer reforma educacional que pretendamos implementar individualmente em nossas famílias ou coletivamente, tem que encarar de frente as patologias específicas inerentes à escolarização compulsória a fim de tratá-las, para não se tornar simplesmente mais uma reforma de fachada, que tanto repudiamos.

Eis a “cara da besta escolarizada”, segundo nos mostra Gatto:

1. As crianças escolarizadas são indiferentes ao mundo adulto. Esse fato desafia a experiência de aprendizagem da humanidade, que tem sido acumulada durante milhares de anos. Quando se estuda detalhadamente a vida de pessoas importantes da humanidade, sempre acaba sendo a paixão que elas tinham que se tornara a ocupação mais emocioante de sua juventude e, por conseguinte, a razão de seu sucesso e realização pessoal. No entanto, nem as escolas e nem os pais querem que as crianças cresçam hoje em dia, muito menos as próprias crianças — e quem pode culpá-las?


2.Os nossos filhos escolarizados quase não têm curiosidade e o pouco que têm é momentânea e circunstancial. Temos crianças que não conseguem se concentrar por muito tempo, nem mesmo nas coisas que escolhem fazer. É possível ver claramente uma conexão entre as sinetas tocadas repetidamente para a mudança de classe e esse fenômeno da falta de atenção.


3.As crianças escolarizadas têm uma péssima noção de futuro, de como o amanhã está inextricavelmente ligado ao hoje. As crianças escolarizadas vivem em um presente contínuo: o momento exato em que estão é o limite de sua consciência.


4. As crianças escolarizadas são a-históricas: não têm noção de como o passado predestinou seu próprio presente, limitou as suas escolhas, e moldou seus valores e vidas.


5. Os nossos filhos escolarizados são cruéis uns com os outros; eles não têm compaixão pela desgraça alheia, riem da fraqueza humana e desprezam as pessoas cuja necessidade de ajuda se mostra claramente.

6. Os nossos filhos escolarizados sentem-se desconfortáveis perante a demonstrações de intimidade ou sinceridade. Eles não conseguem lidar com a intimidade genuína por causa do hábito de preservar um eu interior secreto dentro de uma persona externa maior, composta de partes artificiais e pedaços de comportamento emprestados da televisão, das mídias sociais ou adquiridos para manipular os professores. Por não serem realmente essa persona que estão representando, o disfarce cai na presença da intimidade e por isso, os relacionamentos mais íntimos precisam ser evitados.


7. As crianças escolarizadas são materialistas, pois seguem o exemplo dos professores que materialisticamente “dão nota a tudo”, como também dos seus “mentores”das mídias sociais ou da televisão que colocam um preço em tudo.


8. As crianças escolarizadas são dependentes, passivas e tímidas na presença de novos desafios. Essa timidez é frequentemente mascarada por bravatas superficiais ou por raiva e agressividade, enquanto em seu âmago jaz um vácuo sem força de realização.

O Que Pode Ser Feito?

As ideias de Gatto são ainda extremamente atuais, embora os nossos tempos estejam mais difíceis, exatamente pelo fato de termos deixado a escolarização ir longe demais e estarmos pagando o preço por não termos, nós enquanto pais, prestado mais atenção. Afinal, nós também fomos escolarizados.

No entanto, sempre há esperança, especialmente nesses tempos de quarentena, em que o funcionamento das escolas foi alterado, deixando mais à mostra ainda a irrelevância da escolarização compulsória na vida de nossos filhos .

Mas como alerta Gatto, precisamos, antes de tudo, de um debate nacional contundente que não desista, mas esteja atuante dia após dia, ano após ano… seria o tipo de debate contínuo que a mídia convencional, atualmente retida nas mãos daquelas 6 mega-companhias donas do mundo, considera inapropriado.

Precisamos gritar e discutir os males da escolarização compulsória até que ela seja reformada ou, finalmente, quebrada além da possibilidade de reparo.

Se pudermos reformar esse modelo doente, ótimo; se não, o sucesso da educação não-escolar nos mostra um caminho diferente, e bastante promissor.

A proposta de Gatto é sedutora, em minha opinião: investir o dinheiro público, que até agora tem sido investido exclusivamente na escolarização, de volta à educação familiar pode curar duas doenças com um só remédio: curar as famílias, à medida em vai curando as crianças e criando um novo tipo de comunidade interdependente.

A reforma legítima do atual sistema de escolarização também é viável, desde que não custe nada mais do que o já dispensado, uma vez que injetar mais dinheiro e mais pessoas nessa instituição doente só a deixará mais doente ainda. Mas precisamos, antes de tudo, repensar as premissas fundamentais da escola e decidir o que queremos que as nossas crianças aprendam e para quê (ou para quem?).

Durante 140 anos, os Estados Unidos impeliram a escolarização compulsória na população, sistema cujas regras foram elaboradas a partir de um elevado centro de comando composto por “especialistas”, ou seja, uma elite centralizada de engenheiros sociais…. e não deu certo. Foi, na verdade, uma enorme deslealdade à promessa democrática que, no passado, fez dos Estados Unidos uma experiência grandiosa.

Gatto afirma que a tentativa da Rússia de criar a república de Platão na Europa Oriental foi um fracasso patente; e a tentativa americana de impor o mesmo tipo de ortodoxia central, usando as escolas como instrumento, também está desmoronando, embora mais lenta e dolorosamente.

A escolarização compulsória, segundo Gatto, não funciona porque suas premissas fundamentais são mecânicas, anti-humanas e hostis à vida familiar.

As vidas de uma multidão de indivíduos podem ser projetadas e controladas pela escolarização mecânica, mas haverá, por certo, o contra-ataque, com base em armas da patologia social: drogas, violência, autodestruição, indiferença e todos sintomas que Gatto nos mostra, no comportamento das crianças escolarizadas.

Curiosidade…


Em 1990, o movimento Homeschooling (educação em casa) crescia silenciosamente , contando um milhão e meio de jovens que foram educados inteiramente por seus pais; a imprensa da época noticiou que, em sua capacidade reflexiva, as crianças que estudavam em casa estavam cinco ou até dez anos à frente de seus pares que estavam sendo formalmente treinados.

Atualmente, a Califórnia é o estado em que estão registrados o maior número de crianças de 5 a 17 anos em situação de Homeschooling, contando, de acordo com o Censo e PEPSYASEX (Estimativas anuais da população residente por idade e sexo para a Comunidade dos Estados Unidos, Estados e Porto Rico: 1º de abril de 2010 a 1º de julho de 2015) cerca de 198.947 crianças e jovens educados em casa.

Esses números foram calculados com base nos 21 estados que, atualmente ou nos anos passados, publicaram em seus sites oficiais o número de crianças adeptas à educação não-escolar (veja aqui os números referentes aos outros estados norte-americanos).

Espero ter contribuído um pouco para enriquecer o debate educacional que novamente se instala nas sociedades pós-coronavírus.

Estou sempre aberta a reflexões e perguntas, que respondo sempre com base na minha experiência com o Homeschooling aqui na Califórnia .

Até o próximo post!

Flavia Criss.

Santa Cruz- CA, Junho de 2020.

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