precisamos mesmo de mais escolas?

Este é o penúltimo post que faz parte da primeira série de artigos sobre escolarização ou treinamento escolar analisados sob o olhar experiente de John Taylor Gatto, um dos autores cujas concepções sobre o que significa escolarizar crianças mais me impactaram no início da minha jornada com o Homeschooling, que ora está em plena transição para o Unschooling (Não-Escolarização). Falarei sobre isso com mais detalhes em um outro post, combinado?

Gatto percebe a grande dificuldade que vários especialistas em Educação demonstram ter em relação ao desnecessário aumento da capacidade das existentes redes formais de educação — aqui nos EUA isso se mostra com a extensão do dia ou do ano escolar, implementados pelos governos dos estados, por exemplo– a fim de fornecer uma solução econômica para os problemas que enfrentamos atualmente em nossas sociedades e que estão intimamente relacionados à decadência de um sentido de família que bem nos acolha e a nossas crianças. Talvez uma razão para essa estreita visão dos especialistas, aos olhos de Gatto, seja a dificuldade em se entender a real diferença entre comunidades, famílias e as redes sociais e de conhecimento (networks).

O Que é Networking?

Networking, ou rede social de conhecimentos é a troca de informações (contatos) com pessoas que têm interesses em áreas semelhantes. Um exemplo desse tipo de rede é a aquisição de contatos e o compartilhamento de informações entre diferentes divisões de uma mesma empresa para a troca de dados e resolução de problemas de negócios, por exemplo.

Essa rede tem, além da perspectiva social, a finalidade de possibilitar o acesso para que as pessoas desenvolvam ou melhorem um conjunto de habilidades específicas e se mantenham atualizadas sobre as últimas tendências do seu setor profissional, acompanhando o mercado de trabalho, conhecendo mentores em potencial, parceiros e clientes, incluindo o possível acesso aos recursos necessários que poderão promover o desenvolvimento nas suas carreiras.

Competitividade e Soluções Mecânicas

Devido à confusão que comumente se estabelece entre os papéis das comunidades e/ou famílias, por uma lado, e das redes de conhecimento (sociais), por outro, os especialistas facilmente concluem que substituir uma rede social de conhecimentos inapropriada por outra mais eficiente seria o caminho do sucesso para as pessoas que deixaram as escolas e caíram no mercado de trabalho.

Gatto discorda veementemente da premissa fundamental assumida de que redes sociais de quaisquer natureza seriam substitutos viáveis para as famílias e comunidades. Este nosso professor da rede escolar pública americana enfaticamente defende a posição de que não deveríamos pensar em mais treinamento, mas sim em menos.
As pessoas que admiram a instituição escolar, geralmente apreciam o networking em geral e têm facilidade em ver seu lado positivo, ignorando seu aspecto negativo: as redes, mesmo as eficientes, acabam por drenar a vitalidade das comunidades e das famílias, fornecendo soluções mecânicas, que seguem certos procedimentos-padrão, para os problemas humanos, quando, de fato, precisamos de um processo lento e orgânico de autoconsciência, autodescoberta e cooperação para que determinadas soluções persistam à natureza desagregadora da sociedade de consumo atual.

Aristóteles viu, há muito tempo, que a participação plena em uma complexa gama de assuntos humanos seria a única maneira de nos tornarmos plenamente humanos. O que se ganha com a consulta a um especialista, abrindo mão de seu próprio julgamento, geralmente se compensa com a perda permanente da própria vontade.

Afirma Gatto que tal descoberta pode explicar a curiosa textura da comunicação real, na qual as pessoas discutem com seus médicos, advogados e ministros, dizendo aos produtores de bens (artesãos, etc) o que precisam, em vez de aceitar o que recebem, fazendo sua própria comida em vez de comprá-la e muitas outras ações semelhantes de participação social. Para Gatto, uma comunidade real é o ajuntamento de famílias reais que funcionam dessa maneira participativa.

Um adendo: para Gatto, a ideia de “família”não significaria a exclusividade da tradicional disposição “mamãe-papai-e-filhinhos”, mas inclui todos os seus aspectos, inerentes aos relacionamentos humanos com base no amor: “mamãe-mamãe-e-filhinhos”; “papai-papai-e-filhinhos”; “mamãe-irmã-e-sobrinhos”, etc.

Por outro lado, para fazer parte das redes sociais de conhecimento, você não precisa ser uma “pessoa inteira”, mas apenas parte de uma pessoa. Para fazer networking, você deve suprimir de si mesmo todas as outras partes , exceto aquela de interesse da rede social — algo extremamente antinatural, embora a gente se acostume. Em troca, a rede lhe fornecerá eficiência na busca de algum objetivo determinado (fama? técnicas? Qualquer coisa vale).

Parece bom negócio, mas no final você acaba vendendo a sua alma para o diabo, uma vez que, com a promessa de algum ganho futuro, você vai precisar abrir mão da totalidade da sua real humanidade. Ao participar de inúmeras dessas barganhas, você se subdividirá em várias partes especializadas, porém nenhuma delas completamente humana, sem possibilidade ou tempo de reintegração real.
A fragmentação causada pelo excesso de networking cria uma humanidade diminuída e a sensação de que as nossas vidas estão totalmente fora de nós — porque estão.

Para encararmos a atual crise das escolas e comunidades de forma mais categórica, precisamos entender que as escolas têm funcionado como redes sociais de conhecimento, gerando grande parte da agonia da vida moderna. Por isso Gatto diz que não precisamos de mais escolarização — precisamos sim, de menos escolarização.

Mais Um Pouco de História….

Escola compulsória de massa em 1886, Massachusetts

As pessoas ainda querem provas dos malefícios da escolarização a longo prazo, muito embora milhões de indivíduos aqui nos EUA que participam da educação não-escolar hoje em dia já tenham colocado uma pulguinha atrás da orelha da população atenta, por causa do equilíbrio e segurança que as crianças educadas em casa demonstram ter ao abraçar suas carreiras empreendedoras o ou até mesmo, acadêmicas.

No entanto, para aqueles que ainda não sabem que não precisamos de professores certificados e nem de escolas oficiais para garantirmos uma boa educação para os nossos filhos, Gatto procurou tornar pública em sua obra uma grande parte do arsenal que faz da educação oficial o carrasco nocivo que é. E ele adverte aquele que estiver pensando “mas sempre foi assim” — não foi não!


A escolaridade obrigatória nas escolas de massa aqui nos EUA é um empreendimento bastante recente, muito característico das regiões de Massachusetts e de Nova York.

Gatto lembra que até trinta e tantos anos atrás, as pessoas podiam escapar da escolarização em massa depois que saíam da escola; agora é muito mais difícil fugir, porque existem outras formas de educação em massa — a televisão e as redes socias– que suprimem os espaços para que seja exercida alguma liberdade que ainda exista nos sujeitos criativos.

Assim, o que já era grotesco quanto ao tratamento nacional dos jovens americanos antes da década de 1960, tornou-se trágico, uma vez que surgiu o entretenimento comercial em massa, tão viciante quanto qualquer outra droga alucinógena, bloqueando as rotas de fuga da massificação total.
O que se ignora é que, o que consideramos como comunidades reais, dada a sua natureza comunitária de “famílias institucionais” — escolas, grandes corporações, faculdades, exércitos, hospitais e agências governamentais — na verdade, são genuinamente redes sociais.

Comunidades X Networks

Diferentemente das comunidades, as redes sociais, como adverte Gatto, permitem de forma estreita e limitada a associação entre as pessoas, e essa maneira de associação é efetuada através de algumas poucas uniformidades específicas.

Mesmo havendo momentos de rituais de celebração como a festa de Natal ou os aniversários comemorados no “espaço social”, quando os componentes individuais humanos da rede vão para casa, eles vão sozinhos. E, apesar do possível apoio dos colegas de trabalho em emergências, quando as pessoas sofrem em qualquer networking , elas sofrem sozinhas, a não ser que tenham alguma família ou uma comunidade para sofrer junto com elas.

As redes de conhecimento, assim como as escolas, não são comunidades; assim como o treinamento escolar também é muito diferente de educação.

De fato, Gatto adverte que as escolas de qualquer tipo são redes sociais que roubam a vitalidade das comunidades e a substituem por um mecanismo grotesto de controle, destituindo dos jovens cinquenta por cento do seu tempo total, prendendo-os junto com outros jovens que têm exatamente a sua idade (bizarro!), tocando sinetas para iniciar e terminar trabalhos aleatórios, pedindo a essas pessoas que pensem na mesma coisa, ao mesmo tempo, da mesma forma, classificando pessoas como se classifica legumes. Ninguém sobrevive a esses lugares com a sua humanidade intacta, nem crianças, nem professores, nem administradores, nem pais.

Por outro lado, a comunidade é um lugar no qual as pessoas convivem, ao longo do tempo, com toda a sua variedade humana: suas partes boas, suas partes ruins e as mais-ou-menos.

Esses lugares promovem a mais alta qualidade de vida possível, pois são vidas que têm engajamento e participação, acontecendo de maneiras inesperadas e espontâneas….são riquezas que não existem quando o sujeito passa mais de uma década ouvindo outras pessoas expondo conteúdos inanimados e tentando fazer o que elas mandam, ou seja, tentando agradá-las à moda das escolas.

Faz uma diferença real na vida se alguém escapa desse treinamento…se não conseguir, ficará um bom tempo aprisionado em um corpo desmembrado.

Em suma, Gatto reitera inúmera vezes ao longo de sua obra os danos que as redes de conhecimento (networking) — escolas e redes sociais, de modo geral — causam, pois travestem-se como comunidades reais para criar nas pessoas expectativas de que possam gerenciar, de alguma forma, as necessidades sociais e psicológicas humanas. A realidade é que as redes sociais não servem para isso.

Mesmo as associações mais inofensivas quanto os clubes de bridge, clubes de xadrez, grupos de atuação amadores ou grupos de ativistas sociais, vão acabar por produzir uma sensação estranha, mas familiar, de estarem sozinhos no meio de uma multidão. Qual de nós, que faz parte de alguma rede, não teve essa sensação? Pertencer a muitas redes sociais de conhecimentos não significa pertencer a uma comunidade, não importa o que você faça ou com que frequência o seu telefone toque.
Sendo parte de uma rede, o que você receber no começo da afiliação/amizade, será exatamente o que vai receber no final. As redes sociais ou de conhecimento não ficam melhores ou piores com o passar do tempo, pois seu objetivo limitado as mantém praticamente da mesma forma o tempo todo, pois não há crescimento humano que seja possível em seu interior.

O Grande Negócio que se chama “Educação”

Esse negócio super lucrativo que chamamos de “educação” — quando se quer dizer, na verdade, “escolarização” — é, segundo Gatto, um ótimo exemplo dos valores imbutidos nas redes sociais de conhecimentos que estão em contraste com os valores da comunidade.

Durante cento e cinquenta anos foi de interesse da educação institucionalizada oferecer ao público, como um de seus maiores objetivos, uma preparação para se adquirir sucesso econômico. Assim, ter uma boa “educação” (a instituicionalizada) era sinônimo de obtenção de garantias de se adquirir um bom trabalho, e com isso, um bom dinheiro, e por conseguinte, coisas boas. Essa era a bandeira nacional universal, sustentada pela instituição de Harvard e também pelas escolas de ensino médio americanas.

A prescrição de tal receita facilita o controle e a intimidação dos pais e alunos, desde que os termos essenciais da equação não sejam contestados em sua “veracidade” ou “verdade filosófica”.

Curiosamente, a Federação Americana de Professores aponta como uma de suas missões principais a persuasão da comunidade empresarial para que eles só contratem e promovam seus eleitos de acordo com as notas obtidas na escola, de forma que a fórmula notas escolares = dinheiro recebido seja mantida, exatamente como ainda acontece com as escolas de medicina e direito após anos de lobby político.

Até a atualidade, os empresários continuam contratando e promovendo seus eleitos à moda antiga americana, ou seja, fazendo uso do desempenho pessoal nas entrevistas e do julgamento particular como modo de seleção , mas, segundo Gatto, muitas empresas ainda estão sujeitas a sucumbir à indústria da “educação”, se não tiverem nada a perder.

O absurdo de definir a “educação institucionalizada” como sendo um bem de consumo fica mais evidente quando nos perguntamos o que é que a humanidade ganha, quando consideramos “educação” como mais um modo de aumentar ainda mais o consumismo descontrolado que ameaça a terra, o ar e a água do nosso planeta.

Será que devemos continuar doutrinando as pessoas para que elas possam comprar a felicidade, diante da evidência impávida que nos afronta a atualidade, como prova de que não podem? Devemos ignorar as evidências de que o vício em drogas, o alcoolismo, o suicídio de adolescentes, o divórcio e outros desesperos são patologias encontradas nos indivíduos moldados pelos dogmas da educação instituicionalizada como bem de consumo? São as perguntas que John Taylor Gatto lança a seu público leitor.

Nas respostas para tais perguntas jaz tanto a compreensão da doença que está nos matando, quanto a cura que estamos procurando.

Depois de mais de um século de existência, qual é o real objetivo da escola de massa?

Leitura, escrita e aritmética não são mais as respostas corretas, porque quando abordadas apropriadamente nas escolas, tais habilidades nem perfazem o total de cem horas para serem transmitidas — fora o fato de que temos evidências abundantes de que cada uma dessas disciplinas pode ser auto-adquirida, dependendo do tempo e do lugar em que o indivíduo aprendente se encontra.

Assim, estamos em novos tempos, inaugurados por uma pandemia, que independentemente de sua origem, trouxe uma pausa para a humanidade decidir quais mudanças os seres humanos irão implementar a partir de agora, mudanças essas que se pautam pela educação de nossas crianças.

A pergunta, acima em negrito, se sustenta e não deve mais se calar.

Até o próximo post!

Flavia Criss,

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