Tempos Surreais

É possivel um meio-homem/meio-robô encontrar o amor junto a um homem que tem cobras no lugar de cabeça?

Qualquer pessoas que estiver vivendo neste planeta neste momento pode concordar com a assunção simplista de que estamos vivendo em tempos surreais.

É um momento histórico em que todas as certezas humanas, especialmente as acadêmicas, estão suspensas por tempo indeteminado….em pausa para reflexão….em pausa para reconstrução…em pausa, enfim, para a criação de algo maior e melhor — meu desejo intrínseco.

A escolarização científica (solidamente estabelecida até então…) também se encontra em pausa para a reformulação (ou reestabelecimento, talvez?) dos seus planos de centralização, concretizados sob a forma dos padrões nacionais de “educação”( sim, entre aspas, pois sabemos que são padrões de escolarização), do currículo nacional e testes padronizados nacionais classificatórios.

Vemos, nesses tempos, a busca humana pelo sentido e por explicações, combinados com uma sufocante ânsia pela segurança da resposta certa, da escolha certa: as máquinas são o caminho….as intervenções em massa são a resposta…o contínuo aprisionamento é o rumo… a nossa única certeza é que a incerteza impera.

A experiência centralizadora dos afazeres humanos que tivemos no século passado — e já adentrados 20% do novo século — não tem sido muito boa para a maioria das pessoas.

Segundo Gatto, o nosso próprio planeta está em risco e os elementos ditos perniciosos, há muito excluídos por lei da existência norte-americana, como abuso de álcool, de drogas e do racismo, não parecem ter desaparecido, mas ao contrário: a lei parece dar, continuamente, nos maus hábitos, uma nova injeção de “vida virulenta”.

Será que a intimidação com base na lei produz mesmo os resultados sociais que promete? Gatto relembra que no início do século XX, os narcóticos eram legais nos Estados Unidos (álcool; cocaína; morfina; cannabis) e embora sempre tenham sido um incômodo pernicioso à sociedade, nunca se tornaram uma epidemia, antes de a legislação proibir o seu uso.

Será que o fato de as pessoas serem obrigadas a fazer algo (ou a não fazê-lo) faz com que elas o façam mais ainda, porém na sua versão piorada? Seria possível que as pessoas obrigadas a fazer algo só consigam obedecê-lo com a força da má vontade e da indiferença?

Gatto relembra que várias proibições relativas às escolhas pessoais em matéria de educação tem sido, continuamente, reforçadas por lei, o que faz consagrar-se toda uma burocracia exclusiva de professores e administradores oficiais, além de centenas de “agências invisíveis” necessárias para manter a estabilidade do monopólio da escolarização obrigatória oficial.

Desafiando as lições do mercado, esse construto psicopático tornou-se extremamente poderoso, apesar de suas falhas colossais frequentemente materializadas ao longo de sua história.

A escolarização mandatória só consegue sobreviver nos EUA porque faz uso contínuo do poder de polícia do Estado para conseguir preencher suas salas de aulas, proibindo, por outro lado, a escolha e a variedade da educação em muitos estados americanos.

Johnn Gatto alerta que, ao impedirem a fluência natural das opções educacionais, os engenheiros sociais oficiais, apoiados pelas indústrias que lucram com a escolarização obrigatória — professores de faculdades, editores de livros didáticos, fornecedores de materiais e outros — certificam que os nossos filhos não tenham educação, mesmo que eles sejam totalmente escolarizados.

Soluções?

Nesses tempos, mais do que nunca, parece óbvio que as escolas americanas fracassaram espetacularmente na sua tarefa cabal de dar aos nossos filhos a educação que queremos para eles –ou para nós mesmos — além de terem sido completamente negligentes em ser um instrumento efetivo de realização do sonho de uma sociedade democrática e sem classes, pela qual ainda ansiamos.

Mas, enfim, vejamos a “pegadinha” implícita nessa tragicomédia : o que falta, nesse tipo de “educação”, é a lógica que explica o nosso fracasso enquanto sociedade. Ao nos permitirmos a imposição da direção por parte de centros muito além do nosso controle local, perdemos continuamente a coerência natural do espírito humano: as pessoas só se sentem completas e integradas quando se reúnem voluntariamente em grupos que têm o mesmo ideal de almas.

Nós nos reunimos para buscar realizar os nossos sonhos individuais, familiares e coletivos, que são consistentes com a nossa humanidade particular. Esse sentimento de pertencimento e união é o que os torna inteiros, e os nossos sonhos devem ser inscritos localmente, uma vez que buscar empreender qualquer outra ambição maior, sem ter estabelecido essa base local é perder o contato com as coisas que dão sentido à nossa vida: eu, minha família, meus amigos, meu trabalho e minha comunidade.

Somente escravos são reunidos por outros.

John Taylor Gatto

Indústrias da engenharia social

Não espalhe vírus

John Taylor Gatto aponta duas maneiras oficiais e errôneas de se tratar a questão da educação nos Estados Unidos: a primeira, seria entendê-la como sendo um problema de engenharia social, que pode ser remediado através de uma abordagem instrumental pragmática. A partir desse ponto de vista, existiria uma maneira simples e certa de educar e estariam eliminadas as mil possibilidades individuais particulares que o espírito humano, naturalmente empreendedor, pode contemplar.

A segunda seria conceber a educação como se fosse um personagem de um drama contínuo, em que nós, os mocinhos, procuramos incansavelmente por aqueles vilões que estão impedindo o aprendizado dos nossos filhos: os maus professores, os livros didáticos ruins, administradores incompetentes, políticos nefastos, pais destreinados, filhos mimados — quem quer que sejam eles, precisamos encontrá-los, indiciá-los, denunciá-los, processá-los e talvez até executá-los! Aí sim as coisas vão dar certo.
Dessas duas formas de entendimento, nasceram as gigantescas indústrias que proclamam seus poderes para curar a “educação” em massa de suas mazelas em troca de muito dinheiro, of course….e assim, nesse mundo mágico e trágico, surge um desfile de organismos que buscam simplesmente o seu próprio lucro: analistas, consultores, pesquisadores, academias, escritores, consultores, colunistas, comitês de livros didáticos, conselhos escolares, empresas de teste, jornalistas, colegiados de professores, estados, departamentos de educação, monitores, coordenadores, fabricantes, professores e administradores certificados, programas de televisão e verdadeiras quadrilhas de empresas relacionadas à escola — ou seja, todo um universo que parasita em torno do monopólio oficial sobre esse conceito de escola.

Para Gatto, a maior atração da engenharia social e das filosofias anti-alguma coisa é que todos, basicamente, nos prometem uma solução rápida, que sempre foi o lado sombrio do sonho americano, ou seja, a busca de uma saída fácil e rápida para tudo. Nesse sentido se orienta o mencionado desfile interminável de “promoções”, que constitui o cerne da publicidade americana, que é um dos maiores empreendimentos dos Estados Unidos: promessas ofuscantes de dinheiro fácil, saúde fácil, beleza fácil, educação fácil — ah se nos tornássemos, cada um de nós, uma Jennie é Um Gênio! No entanto, espreitando por trás da “mágica”, Gatto nos mostra a imagem das pessoas como máquinas, que podem ( e precisam) ser construídas e reparadas. Este é legado calvinista americano, ecoando pelos séculos afora, propagando a ideia de que o mundo e toda a sua variedade de seres vivos são apenas máquinas, não muito difíceis de ajustar, se deixarmos de lado o sentimentalismo vão.


Mas no final das contas, a forma como pensamos os problemas sociais depende muito de nossa filosofia acerca da natureza humana: do que pensamos que somos, do que achamos que somos capazes e de quais seriam os propósitos da nossa existência.

É o que nos mostra Gatto: se as pessoas são máquinas, a escola pode ser mais uma maneira de tornar essas máquinas mais confiáveis; a lógica das máquinas determina que as peças sejam uniformes e intercambiáveis, que todas as operações mecânicas sejam limitadas pelo tempo, que sejam, ainda, previsíveis e econômicas.

Vasos pequenos demais…

A escolarização americana ensina, pela sua metodologia, de acordo com Gatto, que as pessoas são máquinas. Tocada a sineta, os circuitos se abrem e se fecham, a energia flui ou é restrita, as várias qualidades são reduzidas a um sistema numerado, um curso se segue, mas qual seja ele, nenhuma das peças da máquina o sabem.

Traduzo a seguir o que o mexicano Octavio Paz, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura de 1990, diz sobre as escolas americanas:

No sistema norte-americano, homens e mulheres são submetidos, desde a infância, a um processo inexorável. Certos princípios, contidos em breves fórmulas, são repetidos infinitamente pela imprensa, rádio, televisão, igrejas e, especialmente, pelas escolas. Uma pessoa aprisionada por esses esquemas é como uma planta em um vaso pequeno demais. Ela não pode crescer, nem amadurecer. Esse tipo de conspiração não pode deixar de provocar rebeliões individuais violentas.
Não podemos crescer ou amadurecer, como plantas, em vasos minúsculos. Ficamos viciados em dependência; na atual crise nacional da (necessidade de) maturidade, parece que ficamos esperando o professor nos dizer o que fazer, mas o professor nunca aparece. Pontes desabam, homens e mulheres dormem nas ruas, banqueiros trapaceiam, a decadência da boa vontade acontece, famílias se traem, o governo mente por que faz política — corrupção, vergonha, doença e sensacionalismo estão por toda parte. Nenhuma escola possui um currículo que nos forneça uma solução rápida.

Essencialmente, essa concepção de escola se baseia na mentira de que existe um caminho certo nos assuntos humanos e que só os especialistas podem ser consagrados com a direção permanente da empresa-educação, o que é uma falácia sem tamanho. Gatto adverte que a própria dinâmica incessante do tempo, das situações e das singularidades locais torna qualquer especialidade (expertise) irrelevante e obsoleta, imediatamente após a sua consagração.

Gatto acredita que o monopólio da escolarização seja a maior trunfo para o treinamento de pessoas para a sociedade/política atuais, uma vez que certifica especialistas permanentes, que gozam de um status privilegiado que não se justifica pelos resultados que produzem. E tais privilégios, uma vez alcançados, não são cedidos de bom grado. Além disso, essas “especialidades” executadas por tais “especialistas” — mesmo sendo alvo das mais severas críticas — se tornam cada vez maiores e mais perigosas, pois nutrem partes importantes do sistema político e econômico americano.

De fato, esse sistema torna-se refratário às reformas, pois deixou de ser um sistema/conjunto de funções humanas, mas se transformou em estruturas abstratas, de alta eficiência, independentes da longevidade da nossa humanidade.

Hora do basta!

Socorro….

Gatto e sua obra demonstra, além das nossas próprias experiências vividas na pele, que o sistema escolar não funciona nos termos que imaginamos, mas é uma das causas da decadência do nosso mundo.

Não existe reforma que faça a máquina da escolarização funcionar, em termos da produção de pessoas instruídas e educadas: educação e escolarização são, como já vimos, termos mutuamente exclusivos.

Conta-nos Gatto que, em 1930, há quase 100 anos, Thomas Briggs, Professor do Departamento de Educação — Teachers College — da Universidade de Columbia, em uma palestra em Harvard, já avisava que o grande investimento americano no ensino médio não havia mostrado resultados consideráveis.

​​Duas décadas depois, em 1951, uma pesquisa feita em Los Angeles com 30.000 crianças em idade escolar publicou que 75% dos alunos da oitava série não sabiam encontrar o Oceano Atlântico em um mapa e a grande maioria não conseguia calcular 50% de 36.

Em 1990, Gatto testemunha que a situação ainda não havia melhorado.

O que fazer? Poderíamos começar com o fim do monopólio da escolarização oficial obrigatória, como sugere John Taylor Gatto.

Outras sugestões são bem-vindas….não há respostas certas.

Podemos incentivar a experimentação em educação e confiar nas crianças e suas famílias para saber o que é melhor para eles; podemos parar com a segregação de crianças e idosos dentro de espaços murados; podemos envolver as pessoas das comunidades na educação dos jovens: empresas, instituições, idosos, famílias inteiras; podemos procurar respostas na nossa vizinhança e aceitar sugestões vindas de pessoas, e não de empresas.

Não precisamos temer os resultados educacionais negativos: ler, escrever e fazer conta não são difíceis de ensinar, além do fato de que a própria programação escolar não proíbe o uso de outros programas para o indivíduo aprender essas coisas. Segundo Gatto, há evidências abundantes de que menos de cem horas são suficientes para uma pessoa qualquer ser alfabetizada e se tornar uma autodidata, ou seja, aprender a aprender sozinha.

Não nos desesperemos com as táticas aterrorizantes que querem nos obrigar a entregar os nossos filhos a especialistas.
O ensino, para Gatto, deveria ser “decertificado”, pois não necessita da ação de um “especialista” para implementá-lo. A necessidade de “especialistas em ensino” com “certificados” para fazê-lo é uma falácia.

Vejamos os sinais dos tempos: os verdadeiros resultados da licenciatura dos professores estão nas escolas que conhecemos.

E, acima de tudo, procuremos responder a pergunta que nunca quis se calar: Para quê (e para quem) serve a educação?

Cada um tem o direito de responder a essa questão da melhor forma possível.

O modo compulsório de escolarização escondeu de seu público — e de forma deliberada — o fato de que essa pergunta deve ser formulada e reformulada em todo o percurso educacional — que dura toda a nossa vida — para que um ideal mais legítimo de democracia seja nutrido em prol de um mundo melhor.

É, no mínimo, suspeito e ilegítimo dar a palavra a um “especialista” para que ele responda a essa pergunta em nome de cada um de nós.

Pois bem! O presente post fecha a série de artigos baseados na obra do saudoso John Taylor Gatto.

Na próxima semana, darei início a uma série de artigos sobre as diferentes práticas de Homeschooling implementadas aqui na Califórnia, de acordo com a nossa experiência familiar.

Até a próxima!


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